Tempestades que começaram há um mês deixaram cenário de devastação em Portugal
Mau tempo
Hoje 10:34
— Lusa/AO Online
As
depressões Kristin, Leonardo e Marta, que provocaram também muitas
centenas de feridos e desalojados, obrigaram o Governo a responder com
medidas excecionais e urgentes, tendo sido realizados três Conselhos de
Ministros em oito dias.A primeira
depressão a chegar foi a Kristin, que na madrugada de 28 de janeiro se
intensificou de forma muito rápida, com ventos na ordem dos 200
quilómetros por hora e chuva forte que destruíram ou danificaram
inúmeras habitações e infraestruturas.Muitas
populações ficaram isoladas, sem luz, água e telecomunicações. Os
distritos mais afetados foram Leiria, por onde a tempestade entrou no
território continental (só a capital de distrito já contabilizou 792
milhões de euros em prejuízos, ainda sem fechar o balanço), Coimbra,
Santarém e Lisboa. Um mês depois, ainda há
quem não tenha eletricidade ou telecomunicações na totalidade ou de
forma estável. Na quinta-feira, a E-Redes (do grupo EDP) indicou que a
recuperação do fornecimento de energia está “praticamente concluída”,
persistindo “apenas alguns casos mais pontuais”.
Após a avaliação possível, muitas vezes dificultada pela
impossibilidade de aceder a algumas freguesias devido à queda de
árvores, os executivos municipais procuraram reagir rapidamente.Logo
no dia 30, a Câmara de Leiria lançou uma ação de voluntariado para
limpar os destroços. No mesmo distrito, a Marinha Grande pediu ajuda de
voluntários para limpeza e recuperação das zonas afetadas, e Pedrógão
Grande juntou-se no apelo à doação de lonas e material de cobertura para
as habitações danificadas, a que se seguiram outras autarquias.Sem
ter recuperado da Kristin, e com as populações ainda privadas de
eletricidade e a precisarem de ajuda para tapar telhados, o país
enfrentou a tempestade Leonardo, que colocou em alerta as zonas
ribeirinhas, onde acabou por ser necessário evacuar diversas
localidades.Poucos dias depois chegou a Marta, que entrou no território pelo Algarve e se deslocou para norte.Já
com os solos saturados de água e os rios com caudais no limite,
agravou-se o cenário de cheias, com a ocorrência de inundações devido à
subida das águas de vários rios. Viveram-se
dias desafiantes em várias cidades, como Alcácer do Sal (distrito de
Setúbal), que ficou inundada devido ao transbordamento do Sado, e
Coimbra, onde a subida das águas do Mondego levou à rutura de um dique e
à consequente derrocada de um troço da Autoestrada 1. Também em torno
do Tejo vários concelhos sofreram cheias.As
barragens foram forçadas a libertar grandes volumes de água para evitar
inundações descontroladas. A da Aguieira chegou a atingir um volume
armazenado de 99% e em Coimbra temeu-se que uma cheia de grandes
dimensões pudesse afetar toda a zona ribeirinha do centro urbano. O
concelho chegou a retirar de casas e lares perto de três mil pessoas.Ainda
antes, entre o final de janeiro e o início de fevereiro, a Proteção
Civil nacional deu conta de que cerca de outras 1.200 pessoas de várias
regiões chegaram a ser preventivamente retiradas das habitações e
levadas para locais considerados seguros.Em plena crise, demitiu-se a ministra da Administração Interna, Maria Lúcia Amaral, entretanto substituída por Luís Neves.Entretanto,
o Governo nomeou como coordenador da Estrutura de Missão Reconstrução
da Região Centro o antigo autarca do Fundão Paulo Fernandes, que já
falou em prejuízos entre os cinco mil milhões e os seis mil milhões de
euros.A EDP estimou em cerca de 80 milhões
de euros os impactos provocados pela Kristin. A Infraestruturas de
Portugal registou mais de 4.200 ocorrências durante as últimas semanas
nas redes rodoviária e ferroviária nacionais e garantiu que já foi
“reaberta a quase totalidade da infraestrutura" sob a sua gestão. Num
território que foi comparado a um cenário de guerra, e entre críticas
de autarcas e investigadores à falta ou à demora de atuação do poder
político e de organismos nacionais, as Forças Armadas empenharam
militares no apoio às populações afetadas em ações de vigilância de
diques ou de relocalização de pessoas e bens. Em média, estiveram no
terreno cerca de 2.000 a 3.000 militares em cada dia de atuação.Bombeiros
de todo o país surgiram para apoiar sobretudo os concelhos do distrito
de Leiria, bem como milhares de cidadãos anónimos, que ajudaram na
limpeza e em trabalhos de reconstrução, com o contributo de várias
empresas.Na quinta-feira, já depois de ter
anunciado um aumento dos apoios para 3,5 mil milhões de euros, o
Governo aprovou um decreto-lei que estende a todo o território “o regime
de apoios e medidas de simplificação” que vigoravam para 90 municípios,
desde que seja comprovado que os danos se deveram às tempestades.Depois
de ter declarado a situação de calamidade em 60 concelhos num primeiro
momento, o executivo alargou os apoios primeiro a mais oito municípios
e, esta semana, a outros 22, mas admitindo que havia situações que
poderiam ter ficado de fora.A situação de calamidade que abrangia os 68 concelhos mais afetados terminou a 15 de fevereiro.