Temperatura está a pôr em causa ecossistemas das lagoas dos Açores
17 de out. de 2024, 09:38
— Lusa/AO Online
Em declarações à
agência Lusa, um destes cientistas, Vítor Gonçalves, da Universidade dos
Açores, refere que o estudo conclui que "a partir de 1982, quando se
começa a sentir o efeito das alterações climáticas em geral e do efeito
do aquecimento global", as lagoas, "em simultâneo, sofrem uma alteração
ecológica sem precedentes no passado", algo que é "sincrónico em todos
os lagos". No estudo, realizado em
cinco lagoas da ilha de São Miguel, publicado na revista Nature
Communications Earth & Environment, os cientistas sustentam que as
lagoas “estão a perder parte da sua biodiversidade e da capacidade para
prestar serviços ecossistémicos”. O
estudo envolveu cientistas do Centro de investigação em Biodiversidade e
Recursos Genéticos da Universidade dos Açores, das universidades
Autónoma de Barcelona, Évora, Corunha e Barcelona, do Museu Nacional de
Ciências Naturais (MNCN-CSIC), e dos institutos CREAF, GEO3BCN-CSIC e
CEAB-CSIC. Os investigadores referem que
o estudo “comprovou que a quantidade de espécies de diatomáceas, algas
unicelulares que estão na base da cadeia trófica, se reduziu em média
27% em todos os lagos da ilha de São Miguel a partir de 1982”. A temperatura no hemisfério norte, entretanto, “aumentou 0,35 ºC em relação à média do século XX”.
Vítor Gonçalves afirmou que no passado cada uma das lagoas "teve
evoluções particulares em função de fenómenos naturais ou antrópicos”,
mas com a alteração da temperatura assiste-se a uma “homogenização e
transformação simultânea de todas as lagoas”.
O investigador apontou “como uma das consequências mais visíveis uma
redução da biodiversidade” num grupo de algas “muito importantes no
funcionamento das lagoas”, que sofreram uma redução de 27% nas espécies
presentes nas massas de água estudadas.
Vítor Gonçalves refere que este “novo patamar ecológico é difícil de
reverter”, mas “deve-se atuar em fatores que poderão ser controlados
pelo próprio homem, que são as pressões locais resultantes das
atividades humanas que decorrem nas bacias hidrográficas”.
Em causa estão alterações relativas ao uso do solo, a intensificação
das atividades agrícolas ou agropecuárias, a par do aumento da erosão e
da introdução de espécies exóticas nos ecossistemas das lagoas, que
“diminuem a resistência que o sistema tem para as mudanças”.
“Na redução destas atividades externas poderá estar um fator
importante para atenuar os efeitos decorrentes das alterações
climáticas, que são difíceis de controlar a curto e médio prazo”, afirma
o cientista. Na publicação, os
especialistas consideram que “é provável que as mudanças detetadas nos
lagos do arquipélago estejam também a ocorrer noutros ecossistemas
lacustres em todo o planeta”. De acordo
com a investigação, o conjunto de perturbações antropogénicas sobre o
ecossistema “provocou o desenvolvimento de fitoplâncton composto por
algas de menor tamanho e cianobactérias, frequentemente acumuladas à
superfície da água, que impedem que a luz solar penetre em áreas mais
profundas dos lagos”. “Com a diminuição
da disponibilidade de luz, reduz-se o 'habitat' disponível para as
diatomáceas bentónicas e o número de espécies diminui, simplificando
profundamente o ecossistema”, referiu Vítor Gonçalves.
Vítor Gonçalves defendeu ainda a prática de uma “restauração
ecológica que tenha em conta a situação económica e social dos que vivem
na ilha”.