“Temos que assumir que a escola terminou em março”, alerta Eduardo Sá
25 de jun. de 2020, 07:28
— Lusa/AO Online
“Acho
que se nós tivermos humildade e bom senso e se pensarmos em todas as
crianças, por mais que isso nos doa no coração, temos que assumir que a
escola de certa forma terminou em março, ao contrário daquilo que nós
queríamos”, disse em entrevista à Lusa. Durante
todo o 3.º período, que termina na sexta-feira, o ensino esteve
afastado do espaço físico das escolas e fez-se exclusivamente à
distância, depois de o Governo ter suspendido as atividades letivas
presenciais, em 16 de março, devido à pandemia da covid-19. Ao
longo dos últimos três meses, várias vozes alertaram para o aprofundar
de desigualdades entre alunos, no âmbito do ensino à distância, já que
muitas famílias não tinham condições para assegurar a continuidade das
atividades ‘online’, e Eduardo Sá acompanha essa preocupação. “A
mim e a todos nós preocupa-nos o modo como esta quarentena, que se deu
de um dia para o outro, ajudou a acentuar muitas diferenças sociais
entre muitas crianças e preocupa-nos muito o facto de haver muitas
crianças em Portugal que não têm acesso às novas tecnologias, que não
têm acesso a rede de Internet que lhes permita ter a escola dentro de
casa”, observou. Além do acesso aos meios
tecnológicos, o modelo de ensino remoto tornou o sucesso escolar dos
alunos ainda mais dependente de outros fatores, como o contexto familiar
e o ambiente doméstico, explicou Eduardo Sá, acrescentando que a
própria disponibilidade dos pais para acompanhar o estudo das crianças
se tornou determinante. “No entanto, nós queremos que a escola seja, de facto, o grande motor de igualdade de oportunidades”, afirma. É
neste sentido que o psicólogo recomenda que se pense sobre o 3.º
período de forma “muito benevolente”, com a consciência de que para
muitas crianças e jovens foi um período, de certa forma, perdido.“Temos
que assumir que o desafio a que o Ministério da Educação se colocou é
um desafio seríssimo, porque foi um vendaval, um cataclismo, aquilo com
que teve de lidar, mas pensando em todas as crianças e pensando nos
conteúdos novos, nas oportunidades paritárias que nós queremos perante
esses conteúdos, acho que temos de ter a humildade de assumir que este
3.º período não pode contar de maneira nenhuma como contaria de outra
forma”, defende. O próximo desafio, e o
mais urgente, é preparar o próximo ano letivo, em que vai ser necessário
recuperar as aprendizagens que ficaram para trás, depois de uma
interrupção que, nos casos mais problemáticos, foi de seis meses. “São
seis meses. Na vida de uma criança é muito tempo e na relação com a
aprendizagem é mais tempo ainda e, portanto, a escola não pode pegar nas
crianças como se não se tivesse passado quase nada”, alertou Eduardo
Sá. O psicólogo disse que o tempo perdido
pode ser recuperado, mas avisou que o 1.º período do próximo ano terá
de ser gerido com bom senso e envolvendo a colaboração de toda a
comunidade educativa, de forma a esbater as diferenças acentuadas com
que as crianças vão regressar à escola. “Se
nós não o fizermos, temos consequências tão mais acentuadas a partir do
próximo ano letivo que, de repente, a escola vai-se constipar de uma
forma grave e nós não podemos, de maneira nenhuma, permitir que isso
aconteça”, sublinhou. Relativamente ao
regresso da escola em setembro e a imprevisibilidade da situação
epidemiológica, que não permite dar uma resposta clara, Eduardo Sá
defendeu a importância de o Ministério da Educação preparar diferentes
cenários, avisando que o ensino digital não substitui a escola e a
relação presencial entre as crianças e com os professores. Essa
relação faz parte daquilo que o psicólogo considerou ser uma escola
amiga da criança, aquela que “se tenta adaptar mais às crianças do que
as abriga a fazê-lo em relação a ela” e que torna a infância mais
desafiadora e mais estimulante. “Escola
Amiga da Criança” é também o nome de uma iniciativa lançada em 2018,
resultado da colaboração entre Eduardo Sá, a Confederação Nacional das
Associações de Pais e a LeYa, com o objetivo de distinguir escolas por
iniciativas em diferentes áreas que promovam a felicidade dos alunos no
espaço escolar. “Uma espécie de ‘ranking’
informal que tome em consideração tudo aquilo que muitas vezes os
rankings não consideravam, a relação dos pais com a escola, a forma como
uns e outros conseguiam colaborar e comunicar”, explicou. Este
ano, a iniciativa lançou, para a sua terceira edição, uma nova
categoria chamada “Escola Amiga em Casa”, dedicada ao trabalho
desenvolvido pelas escolas durante a quarentena.Eduardo
Sá ainda não espreitou as candidaturas, que podem ser submetidas até ao
final de junho, mas acredita que, apesar das dificuldades, muitos
professores encontraram soluções “absolutamente incríveis” para que o
ensino não se encerrasse no espaço físico da escola.