Tema dos abusos divide devotos a caminho de Fátima para última peregrinação do ano
11 de out. de 2022, 11:13
— João Luís Gomes/Lusa/AO Online
Em Colmeias,
Leiria, ao fim da manhã de segunda-feira, não havia “clientes” no centro
de apoio do Movimento da Mensagem de Fátima (MMF) e apenas alguns
voluntários se preparavam para a missa que iria ser celebrada pelo padre
Sérgio Fernandes.Faustino Ferreira, há 34
anos no MMF, assume a responsabilidade pelos postos do movimento e
aponta uma explicação para o escasso número de fiéis nas estradas: “o
peregrino agora vem todos os dias [a Fátima]. O peregrino [de agora] não
é como o das antigas peregrinações, que vinha nos meses de maio, agosto
e outubro. Hoje, praticamente, é todos os fins de semana”.“Neste
posto, aqui nas Colmeias, temos grupos todos os fins de semana: 10, 15,
20 ou 30 peregrinos, para ficarem”, assegura, adiantando, que, por
informações do assistente nacional do movimento, para esta peregrinação
aniversária de outubro “se está a verificar, desde o norte a sul, muito
menos peregrinos nestas horas perto de [dias] 12 ou 13”.Segundo
Faustino Ferreira, “a epidemia também ainda não favorece muito estas
caminhadas. As pessoas não gostam de vir com muita gente junta, ainda
estão com medo que se pegue a covid e as constipações que no dia a dia
acontecem”.O que, para si, não se coloca, é
que o afluxo de peregrinos seja prejudicado pelas notícias sobre casos
de abuso sexual no seio da Igreja Católica e a suspeita de encobrimento
que recaia sobre alguns bispos.“Como
cristão que sou e como vejo as notícias e as perguntas que fazem sobre
[o assunto], para mim não têm sentido. Houve sempre e haverá [abusos],
mesmo até nas próprias famílias e, depois, vai tudo ter para cima da
Igreja”, lamenta Faustino Ferreira, acrescentando: “o peregrino, se vem a
Fátima, vem com amor. Para quê? Para agradecer a Nossa Senhora”.Já
Maria da Conceição, de 71 anos, de Ílhavo, que há três dias comanda um
grupo de dezena e meia de peregrinos em direção a Fátima, tem opinião
diferente.“Eu acho que as pessoas que têm a
verdadeira fé não se afastam. Acho que cada um é responsável por aquilo
que faz. Os padres são homens como outros quaisquer e eles é que têm de
sentir no coração deles o mal que estão a fazer… porque são crianças
[as vítimas]”, diz esta católica que, questionando-se a si própria sobre
se os clérigos terão de ser castigados pelos abusos cometidos, é
perentória: “terão, eu estou de acordo que assim seja”.Quanto
ao afastamento de pessoas da Igreja por causa destes casos, também não
tem dúvidas: “Há um afastamento, sim. Isso há. Há pessoas que começam a
afastar-se. E é como digo, porque se calhar não têm aquela fé forte no
coração, em Deus e na Nossa Senhora… Se o meu vizinho é ladrão, eu não
tenho culpa, não é?”“Portanto, eles
[membros do clero] fizeram as asneiras, mas eu tenho fé, tenho de
continuar a viver a minha fé, mas que [a situação] desvia pessoas da
Igreja, isso desvia, sim senhor, isso é de certeza absoluta. Não é o meu
caso”, afirma esta mulher que há 33 anos percorre a pé o caminho entre
Ílhavo e a Cova da Iria, sempre em outubro, “pela fé”.No
mesmo grupo, Gonçalo Teixeira, de 23 anos, a fazer a primeira
peregrinação, mostra alguma incomodidade com a abordagem ao tema dos
abusos.“Esse é um tema que não acho que me
diga tanto respeito, pelo que, normalmente, não dou muito a minha
opinião sobre isso”, diz, adiantando, quando questionado se o assunto
não lhe dizia respeito enquanto católico, que “cada um vê a religião da
sua forma e, nesse aspeto, esses abusos não são todos os casos, são
muitas vezes casos específicos de algumas pessoas, por isso também não
se pode generalizar”.De Valongo, o empresário António Pinto, de 61 anos, estava a terminar a sua 50.ª peregrinação a pé a Fátima.Depois
de ter pedido à Virgem “o impossível dos impossíveis”, por três vezes -
primeiro a cura da sua mulher de uma doença considerada incurável,
depois o sonho de ter dois filhos, o que estava fora de questão, devido
aos problemas de saúde da mulher – e por três vezes ter visto
satisfeitos os pedidos, agora pede pelos outros.“Eu,
todos os anos, depois daqueles pedidos, não venho pedir nada para mim.
Venho pedir para os outros, para os pobres, para aqueles que não têm o
pão de cada dia. Cada ano tenho uma missão. Mas este ano, venho com
muito amor pedir que a nossa mãe de Deus ilumine os governantes russos e
pedir pelo povo russo, que também está a passar maus momentos, para que
a nossa mãe ilumine Vladimir Putin e que lhe dê bons pensamentos para
acabar com esta guerra muito rapidamente, porque todos nós estamos a
sofrer com esta guerra”, afirma.Já sobre a
questão dos abusos, diz que tem “muito para dizer sobre o assunto”, mas
“não agora”. “Isto é muito grave, é gravíssimo. A luz da Igreja está a
apagar-se”.Depois, retoma o caminho, com uma imagem de Nossa Senhora e outra de João Paulo II nos braços.Metros
à frente, visivelmente emocionado ao abordar a promessa que fez para
cumprir os quilómetros que separam Leça da Palmeira de Fátima, Zeferino
Gonçalves, de 60 anos – acompanhado do cunhado, de 69 -, assegura: “Sou
um verdadeiro devoto de Nossa Senhora de Fátima e pronto”.Não
fugindo ao assunto do momento, Zeferino considera que “é inconcebível
que haja atos dessa natureza, adultos a molestar crianças perfeitamente
inocentes. É um crime horrendo. Devia haver mão pesada para esses
crimes. Mão mesmo muito pesada”.“Sejam os
prevaricadores da Igreja, seja um civil comum, eu acho que para esses
crimes devia ser realmente uma mão muito pesada”, acrescenta.Para
este nortenho, “as cúpulas da Igreja têm neste momento uma grande
responsabilidade. As pessoas que lideram devem estar mais atentas e, ao
mais pequenino sinal de fumo, deve-se averiguar intransigentemente até
conseguirem debelar o problema”.Milhares
de fiéis são esperados no Santuário de Fátima para a peregrinação
aniversária de outubro, nos dias 12 e 13, presidida pelo bispo da
diocese de Leiria-Fátima, José Ornelas, também presidente da Conferência
Episcopal Portuguesa, que nos últimos dias tem estado em foco devido à
divulgação, pelo jornal Público, de que está a ser investigado pelo
Ministério Público por eventual “comparticipação em encobrimento” de
casos de abusos sexuais sobre crianças numa cidade da província
moçambicana da Zambézia e de outra por um caso alegadamente ocorrido na
arquidiocese de Braga.