Técnico admite “desigualdade de tratamento” nos incentivos a privados nos Açores
7 de fev. de 2023, 18:33
— Lusa
“Julgo
que terá havido uma desigualdade de tratamento e perda de oportunidades
equivalentes para outros empresários que, provavelmente, perante o
mesmo tipo de dificuldade, não tiveram oportunidade de usufruir deste
mecanismo”, disse Arnaldo Machado, que foi hoje ouvido na comissão de
inquérito do parlamento açoriano para investigar a atribuição de avales
públicos a empresas privadas em anteriores governos regionais
socialistas.O técnico, que agora
desempenha outras funções, referia-se ao caso de um empresário do ramo
hoteleiro, proprietário da empresa AngraSol, o único na região a
beneficiar de um aval do Governo açoriano, no valor de cinco milhões de
euros, concedido em 2010, para a construção do Angra Marina Hotel, uma
unidade de cinco estrelas situada em Angra do Heroísmo, ilha Terceira.“Que
eu saiba, é um caso único”, insistiu Arnaldo Machado, salientando que
geriu os sistemas de incentivos à iniciativa privada nos Açores entre
1991 e 2012, e que não conhece nenhum outro caso em que a região tenha
concedido um aval para facilitar a contração de empréstimos junto da
banca.Questionado pelos deputados da
bancada do PSD sobre se teria atribuído o aval àquele empresário, caso a
decisão dependesse apenas dele, o técnico respondeu que “nunca daria”
essa garantia, tendo em conta a necessidade de “gerir as candidaturas
com critérios de equidade”.“Exigia-se que a
componente reembolsável do incentivo, das duas uma, ou fosse dada pela
banca, ou fosse concedida pelo Governo, mediante uma garantia bancária”,
recordou Arnaldo Machado, referindo-se às opções previstas na
legislação em vigor na região quando o executivo açoriano, na altura
liderado pelo socialista Carlos César, aprovou o aval.Naquele
tempo, o Governo dos Açores fez-se valer de um parecer jurídico
elaborado pelo Gabinete de Eduardo Paz Ferreira, segundo o qual a
concessão do aval era legal para aquele empresário, tendo em conta que o
empreendimento que estava a construir, no valor de 21 milhões de euros,
tinha sido classificado como projeto de interesse regional.O
executivo atribuiu o aval, através da empresa pública “Ilhas de Valor”,
mas, por uma questão de segurança, exigiu a realização de uma hipoteca
sobre o imóvel, situação que, segundo Américo Gonçalves, o empresário
que beneficiou do apoio, acabou por “prejudicar” a empresa, em
comparação com todas as restantes concorrentes.“A
AngraSol não foi beneficiada. A AngraSol foi prejudicada em milhões de
euros”, insistiu o empresário madeirense quando foi ouvido pelos
deputados, no âmbito da comissão de inquérito, recordando que o valor do
hotel era muito superior ao apoio público.Arnaldo
Machado lembrou ainda que, na altura, explicou a Américo Gonçalves que a
hipoteca podia ser feita diretamente junto da banca, sem ter de
envolver o Governo açoriano ou qualquer empresa pública regional,
admitindo que a solução acabou por ser diferente, provavelmente porque a
banca recusou fazer uma hipoteca sobre aquele hotel.O
aval concedido à empresa AngraSol só foi conhecido publicamente em
dezembro em 2021, depois de o Tribunal de Contas ter apurado que o
proprietário da unidade hoteleira tinha entrado em incumprimento,
situação que obrigou a empresa Ilhas de Valor a pagar 500 mil euros à
banca.