Takever, dos drones para todo o mundo aos satélites no espaço
19 de jan. de 2025, 02:48
— Lusa
Quando foi fundada, em 2001, a
Tekever “não tinha nada a ver com drones”, lembra o CEO da empresa,
Ricardo Mendes, um dos cofundadores que, então, convictos de que “a
computação ia ser altamente distribuída, não se ia passar apenas nos
computadores”, apostaram na criação de 'software' “capaz de correr em
coisas com uma capacidade de processamento de dados mais baixa.Com
o objetivo de desenvolver 'software' que pudesse estabelecer a ligação
em rede entre vários dispositivos diferentes, a Tekever começou por
desenvolver sistemas para a banca, saúde, seguros e telecomunicações.
Entre eles, “o primeiro sistema 'mobile banking', ou o primeiro sistema
mobile para os colaboradores da EDP que iam fazer instalação ou leitura
de contadores”, exemplificou Ricardo Mendes.“Este
tipo de coisas permitiu-nos ganhar dimensão, ganhar capacidade de
investimento”, contou à Lusa o CEO da empresa que em 2009 avançou para a
produção e operação de sistemas aéreos não tripulados (Unmanned Aerial
Vehicle - UAS), mais conhecidos como drones, para os setores da
segurança e defesa. Ao setor dominado por
empresas que se focavam mais no ‘hardware’, a Tekever trouxe, na altura
“o fator determinante que é a computação, a comunicação e a inteligência
artificial (IA)”, aliando-o à área mecânica e da aeronáutica para
começar a construir os seus próprios drones.O
papel dos drones AR3 e AR5 no apoio à guerra da Ucrânia trouxeram a
Tekever para bocas do mundo, mas muito antes já a empresa que exporta
99,9% da sua produção, tinha drones a voar por todo o mundo em missões
de monitorização de áreas de difícil acesso, utilizando a IA para
detetar ameaças à vida humana e ao ambiente.Entre
os clientes contam-se governos, agências civis e militares e empresas
privadas. O Home Office inglês e a Agência Europeia de Segurança
Marítima, para a qual desenvolveram, em 2017 “o maior projeto da
altura”, são alguns dos exemplos destacados por Ricardo Mendes. Mas há
mais. Na América do Norte, os drones da
Tekever monitorizam infraestruturas críticas de petróleo e gás,
trabalhando em paralelo com a proteção civil no combate a incêndios. No
Norte de África, vigiam as águas ao largo da costa para detetar
pirataria e efetuam missões de vigilância de oleodutos.Na
Europa, monitorizam o Canal da Mancha e a costa portuguesa, em
colaboração com a GNR, para detetar ameaças como o tráfico de seres
humanos, o contrabando de droga e a pesca ilegal. São também usados para
monitorizar a vida selvagem marinha no santuário protegido de Pelagos,
ao largo da costa de Itália. Tal como os
drones, a própria empresa atravessou fronteiras, abrindo em 2013 o seu
primeiro escritório em Southampton, no Reino Unido, a que se juntou uma
unidade de produção no Aeroporto de West Wales, em Aberporth e, mais
recentemente, instalações em França.Por
cá, às instalações de Lisboa e Porto, acrescentou os centros de produção
das Caldas da Rainha (onde prepara a expansão para um terceiro espaço
na zona industrial) e em Ponte Sor, onde se concentra a maior parte da
produção.Atualmente, a equipa da Tekever
tem mais de 800 pessoas e Ricardo Mendes estima que “deverá ultrapassar
os 1.000 trabalhadores até ao final de 2025”, face ao crescimento da
empresa cujas receitas “duplicaram em 2023 e tornaram a duplicar em
2024”.Em 2024, a massa salarial ascendeu,
só em Portugal, a 25 milhões de euros e a expectativa é de que em 2025
esse valor ascenda a 40 milhões de euros.“Na
Tekever, o salário mínimo é de 1.000 euros, ninguém, desde o setor da
limpeza, aos escritórios ao trabalho mais especializado, ganha abaixo
desse valor”, afirmou, sublinhando não ser “o maior fator de
atratividade da empresa que tem nos seus quadros pessoas de mais de 20
nacionalidades” e uma relação muito próxima com universidades e centros
de investigação.Além da criação de
emprego, a Tekever efetuou em 2024, em Portugal, compras no valor de 12
milhões de euros e planeia gastar no país, até 2027, cerca de 100
milhões de euros.No que toca a drones,
2025 será marcado pela estreia comercial do ARX, o primeiro drone capaz
de coordenar um “enxame” de drones mais pequenos a partir de um drone
maior.O sistema está a ser desenvolvido no
âmbito do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) e irá potenciar as
capacidades de vigilância e de salvamento, combinando missões de longo
alcance e de longa duração com a capacidade de observar pontos de
interesse a curtas distâncias e de vários ângulos. Para
a empresa líder na Europa o desafio é agora “manter a agilidade para
escalar” num setor onde a evolução tem que ser cada vez mais rápida.A
par dos drones, a Tekever está agora envolvida em três missões
espaciais com a Agência Espacial Europeia (ESA). A tecnologia ISL
(Inter-Satellite Link) empresa foi utilizada na primeira missão de
defesa planetária da ESA, a Hera, que ajudará a determinar se um dia se
poderão desviar asteroides que se dirigem para a Terra.A
tecnologia da empresa já demonstrou “com sucesso a sua resistência ao
ambiente eletromagnético do satélite” e, para Ricardo Mendes, o foco é
agora desenvolver “redes de pequenos satélites que colaboram entre si
para atingir objetivos”, área em que a Tekever é a principal
“fornecedora de sistemas de comunicação entre satélites da Agência
Espacial Europeia e da Agência Espacial Francesa”.