Suspeito de comprar casa por Sócrates tinha interesse na obra
Operação Marquês
Hoje 17:19
— Lusa/AO Online
"Noventa
por cento das vezes, o engenheiro Carlos Santos Silva respondia-me na
hora. [...] Gostava sempre de ver outra vez a proposta e os valores",
afirmou Gonçalo Trindade Ferreira, interrogado na condição de arguido no
julgamento do processo Operação Marquês, em Lisboa.Em
causa está a remodelação de um apartamento de luxo na capital francesa
formalmente comprado em 2012 por Carlos Santos Silva, mas que, para o
Ministério Público, foi na realidade adquirido pelo chefe de Governo
entre 2005 e 2011 com fundos provenientes de atos de corrupção.O
alegado desinteresse do empresário pela obra, suportado pela existência
de interceções telefónicas em que José Sócrates expressa opiniões sobre
o projeto, tem sido um dos argumentos da acusação, mas, hoje, Gonçalo
Trindade Ferreira, que ao contrário de Carlos Santos Silva lidou
diretamente com o arquiteto, rejeitou que esse distanciamento existisse.O
advogado recordou ainda que chegou a ser repreendido por a ex-mulher do
antigo primeiro-ministro, Sofia Fava, ter visitado a habitação enquanto
decorria a empreitada. "Levei na cabeça. O
engenheiro [Carlos Santos Silva] disse: 'sou eu que dou as ordens,
ninguém entra naquela casa'", contou, após ser confrontado com
declarações anteriores em que mencionara a visita de Sofia Fava, alguém
que garantiu não saber, à data, quem era.Gonçalo
Trindade Ferreira trabalhou há mais de uma década para um grupo
empresarial de Carlos Santos Silva e responde por três crimes de
branqueamento de capitais: dois por ter tratado da documentação de
compras de casas por parte do patrão e um relativo a 200 mil euros
guardados num cofre bancário, que alegou pertencerem àquele empresário."Em momento algum senti que estava a cometer o que quer que seja. Estava a cumprir o meu dever", salientou hoje o advogado.José
Sócrates, de 68 anos, Carlos Santos Silva, de 67, Sofia Fava, de 56, e
Gonçalo Trindade Ferreira, de 50, são quatro dos 21 arguidos no
processo, que têm, em geral, negado a prática dos 117 crimes
económico-financeiros que lhes são imputados.O
ex-governante socialista responde, entre outros crimes, por três
corrupção, por ter, alegadamente, recebido dinheiro para beneficiar o
grupo Lena, o Grupo Espírito Santo (GES) e o 'resort' algarvio de Vale
do Lobo.O julgamento começou em 03 de
julho de 2025 no Tribunal Central Criminal de Lisboa e os ilícitos terão
sido praticados entre 2005 e 2014.