'Stock' de dívida da empresa Portos dos Açores “não é sustentável”
24 de mar. de 2023, 19:18
— Lusa
“A
Portos dos Açores necessitaria de um prazo superior a 148 anos para
reembolsar a dívida atual, o que não é sustentável”, refere o documento,
a que a Lusa teve acesso, acrescentando que o acionista, o executivo
açoriano (PSD/CDS-PP/PPM), deverá considerar a realização de um
“saneamento de parte da dívida da Portos dos Açores e reestruturação,
junto das entidades bancárias, do restante montante”.Em
causa estão 69,5 milhões de euros de “dívida não sustentável”, que a
empresa que gere os portos do arquipélago acumulou ao longo de vários
anos, a somar a outros 5,4 milhões de euros de “dívida sustentável”, que
os auditores consideram que se adequa à capacidade de geração de ‘cash’
da Portos dos Açores.A auditoria agora
revelada, que incide no período compreendido entre 2016 e 2020 (último
ano do mandato do anterior executivo socialista), lembra que a empresa
“herdou um ‘stock’ de dívida elevado”, justificado, em parte, pela
construção do complexo das Portas do Mar, em Ponta Delgada, e pelos anos
de crise financeira que se seguiram, mas deteta também falhas na
estrutura de gestão da empresa.“A atual
estrutura de capital da Portos dos Açores não é compatível com o nível
de atividade. A insuficiência de fundos libertos pela operação
compromete a capacidade da Portos dos Açores em cumprir com o serviço de
dívida acordado”, pode ler-se no documento.Esta
situação tem provocado um aumento da dívida, através de operações de
refinanciamento, com “impacto negativo” ao nível dos juros, acrescenta.Os
auditores propõem, por isso, que seja “desenhado um cenário com o
acionista”, por forma a definir uma estratégia para o nível de dívida
não sustentável da empresa, caso contrário, a Portos dos Açores
necessitaria de quase um século e meio para reembolsar a dívida atual.O
documento conclui também que existem várias áreas de negócio que estão
sob a gestão da Portos dos Açores, mas que não se enquadram na atividade
prioritária da empresa, como é o caso de piscinas, marinas e das Portas
do Mar, que terão contribuído também para a acumulação de dívida no
passado.“Deverá ser realizada uma análise
de opções para cada uma das atividades, que permita concluir sobre que
solução se afigura mais rentável, quer para a Portos dos Açores, quer
para a Região Autónoma dos Açores”, refere a auditoria, que sugere três
soluções possíveis: “alienação a um privado; gestão direta do acionista;
ou implementação de estrutura de compensação para a Portos dos Açores”.A
relação entre as empresas públicas Portos dos Açores e a Atlânticoline
(que assegura o transporte marítimo de passageiros inter-ilhas) mereceu
também reservas por parte dos auditores, que lembram que a primeira
“suportou encargos” com a segunda, através da concessão de “descontos e
isenções” à operação dos navios, na ordem de 1,5 milhões de euros
anuais.“Em 2019, a Atlânticoline foi
transferida para a Região Autónoma dos Açores, não tendo a Portos dos
Açores sido compensada pelos anos que geriu a atividade da mesma, e pelo
défice gerado”, adianta o documento, que identificou ainda mais 470 mil
euros de défice, resultante de “encargos com donativos e patrocínios”
para ‘rallys’ e regatas, que no entender dos auditores deviam ter sido
suportados pelo Governo e não pela empresa.A
auditoria refere ainda que o Governo tem utilizado a Portos dos Açores
para lançar diversas obras públicas marítimas, maioritariamente
financiadas por fundos comunitários, mas ressalva que o executivo
açoriano não terá transferido, atempadamente, a totalidade dos fundos
regionais para essas obras, obrigando a empresa a assumir dívidas
desnecessariamente.“Apesar de o
investimento ser financiado praticamente na íntegra, exigindo por parte
da Portos dos Açores níveis reduzidos de fundos próprios, o facto de a
empresa gerir obras públicas com características e exigências
particulares, de forma contínua, tem um impacto negativo na sua
atividade”, adverte o documento.A
auditoria lembra, no entanto, que apesar da situação financeira
verificada, a Portos dos Açores prevê um plano de negócios ambicioso
para os próximos anos, prevendo um investimento total de 397,7 milhões
de euros destinado, sobretudo, a reparações de instalações e
equipamentos danificados pelo furacão Lorenzo, que ocorreu em outubro de
2019.