Souto Moura admite desconfiança de vítimas em relação a “tudo o que esteja ligado à Igreja”
8 de mar. de 2023, 09:55
— Lusa/AO Online
O antigo
procurador-geral da República, em declarações escritas à agência Lusa,
considerou que “só há um caminho possível: Construir a confiança nas
estruturas existentes, se necessário renovadas, e assim contribuir para a
maior credibilidade na própria Igreja”.Na
última sexta-feira, em conferência de imprensa, a Conferência Episcopal
Portuguesa (CEP) manifestou a disponibilidade para “acolher a (…)
escuta [das vítimas de abuso sexual no seio da Igreja] através de um
grupo específico, que será articulado com a Equipa de Coordenação
Nacional das Comissões Diocesanas de Proteção de Menores e Adultos
Vulneráveis”.Questionado sobre o papel que
terá a equipa que lidera face à defesa, por parte de muitos setores, de
que uma futura comissão seja independente da Igreja, Souto Moura
sublinhou que a CEP defendeu, também, que “as Comissões Diocesanas (CD) e
a Equipa de Coordenação Nacional (…), criadas em cada diocese e a nível
nacional, serão o local para acolher e acompanhar [as vítimas] e as
dioceses assumem o firme compromisso de dar todas as ajudas necessárias
para que tal aconteça”.Assim, as CD “não
perderão o papel que têm tido, como não podia deixar de ser. É que as CD
existem por determinação expressa do Papa Francisco que as criou e deu,
aliás, um prazo para que estivessem a funcionar. Foram emitidas cartas
apostólicas sob a forma de ‘motu próprio’ do Papa, o Dicastério para a
Doutrina da Fé elaborou um ‘vademecum’ de procedimentos e, inclusive, a
CEP deu orientações. Todas estas entidades atribuíram competências às CD
que a Igreja Portuguesa tem de respeitar”, diz Souto Moura.Por
outro lado, para o antigo PGR, “o grupo a criar para ‘acolher a
escuta’, ou seja, para levar a cabo a escuta das vítimas e as
acompanhar, não se confunde nada com a Comissão Independente [liderada
pelo pedopsiquiatra Pedro Strecht e que divulgou o relatório do seu
trabalho em 13 de fevereiro], que acabou os seus trabalhos. Esta
propôs-se fazer um levantamento histórico e sociológico centrado
sobretudo no passado, e o grupo aludido terá de ter características
operacionais, para acorrer aos casos que cheguem”.“A
maneira como encaro este grupo e a futura articulação com a Equipa de
Coordenação está obviamente articulada com o porquê, para quê da sua
criação e competências que lhe venham a ser atribuídas”, adianta Souto
Moura, que considera “prematuro estar a dar uma resposta definitiva a
estas perguntas porque depende do estudo a ser feito”.Para já, Souto Moura pediu uma reunião com o presidente da CEP, José Ornelas, para discutir o tema.Na
sexta-feira, a CEP anunciou, também, que as CD deixarão de integrar
membros do clero, o que, segundo noticia hoje o Público, já foi colocado
em prática nas arquidioceses de Braga e de Évora.Quanto
às restantes dioceses, terão de o fazer “durante a próxima semana ou no
máximo nos próximos 15 dias”, disse ao jornal a advogada Paula Marinho,
secretária da Equipa de Coordenação Nacional das Comissões Diocesanas.Segundo
Souto Moura, as Comissões Diocesanas poderão, no entanto, “contar com o
contributo de sacerdotes com a condição de ‘assistentes’. O seu
contributo será o de um órgão consultivo individual que ajudará as CD se
e quando for solicitado”.A mudança na
composição das comissões diocesanas é compreendida pelo antigo PGR,
admitindo que “da parte das vítimas haja desconfiança em relação a tudo o
que esteja ligado à Igreja, especialmente se, já depois de abusadas,
não tiveram o acolhimento e acompanhamento que mereciam”.A
posição da CEP sobre o relatório da Comissão Independente para o Estudo
dos casos de Abuso Sexual de Menores na Igreja Católica em Portugal tem
sido criticada por muitas figuras, dentro e fora da própria Igreja, com
a tónica a ser colocada na “falta de empatia” para com as vítimas de
abuso, na recusa pela Igreja de, enquanto instituição, pagar
indemnizações às vítimas, ao contrário do que ocorreu noutros países, ou
no não afastamento de funções dos suspeitos da prática de abuso ou de
encobrimento.Confrontado com estas
críticas, Souto Moura reconheceu que “na conferência de imprensa de
sexta-feira ficaram em aberto muitas questões. Existem sensibilidades
muito diferentes entre os não crentes e crentes que passam ao lado da
fórmula simplista de Igreja conservadora ou progressista”.“Creio
que na questão que nos ocupa só há um caminho possível: construir a
confiança nas estruturas existentes, se necessário renovadas, e assim
contribuir para a maior credibilidade na própria Igreja”, disse o antigo
procurador-geral da República, para quem as comissões diocesanas
“contribuem como motor dessa maior credibilidade, e para tanto é
essencial transparência e recusa de ambiguidades”.Souto
Moura, nas declarações à Lusa, defendeu ainda que “há sempre
necessidade de uma conversão e de coragem. A todos os níveis, desde a
CEP até às CD, passando pelas Dioceses”.“Porque as vítimas abusadas assim o merecem e esta reparação bem a podemos dar”, acrescentou.