“Sou duas Lígias”: a empresária incansável e a avó dedicada
15 de mar. de 2026, 09:00
— Ana Carvalho Melo
Lígia Andrade é “uma mulher feita nas Furnas” que veio nascer a Ponta Delgada por decisão do pai, que queria que a filha fosse “da cidade”. Na primeira infância viveu nas Furnas com os pais, muito ligada à avó materna, a quem chama de “segunda mãe”, e mais tarde mudou-se com a família para a Fajã de Baixo, terra do pai - mudança que sentiu com estranheza e saudade da casa dos avós.Desde cedo assumiu responsabilidades em casa: aos 10-12 anos já tomava conta do irmão mais novo, seis anos mais novo, numa casa sem quintal, cheia de pequenos animais em gaiolas, apesar do medo que tinha deles. Lembra as férias grandes passadas com as avós, as tarefas domésticas e os provérbios da avó, num tempo sem televisão, consolas ou telemóveis.“Nós fazíamos cordões com feijões e massinhas, brincávamos ao faz de conta e, quando chegava a noite, estávamos cansadinhas de brincar”, recorda.Fez o percurso escolar até ao 12.º ano e sonhava seguir Arquitetura, num tempo em que não havia esse curso na Universidade dos Açores. Apaixonou-se cedo pelo homem que viria a ser o seu marido, Fernando Andrade, então funcionário do pai.“Ir estudar para fora namorando não era uma coisa que eu me visse a fazer, porque estava muito apaixonada”, recorda, explicando que casou aos 18 anos e, no final do mês, já estava a trabalhar com o pai. A opção de ficar nos Açores, construir família e integrar o negócio familiar marcou o rumo da sua vida profissional, trocando o sonho da Arquitetura por uma carreira ligada ao comércio e, mais tarde, à decoração e ao imobiliário.Quando Lígia Andrade entra no negócio da família, a empresa João de Oliveira Carreiro, Lda., era essencialmente uma casa de eletrodomésticos, com forte componente de armazém e revenda. Mais tarde, a família criou uma nova sociedade, a Frijoc, que começou por servir para comercializar outras marcas, mas acabou registada como marca própria, dando hoje nome às lojas de eletrodomésticos, mobiliário, decoração e cozinhas.O mobiliário entra na vida da Frijoc pelas cozinhas: primeiro, cozinhas para preencher o espaço de exposição; depois, o fornecedor de cozinhas traz mesas e cadeiras, e este, por sua vez, é amigo de quem vende sofás, abrindo caminho a um portefólio completo de mobiliário. Hoje, a Frijoc vende eletrodomésticos, mobiliário, decoração e cozinhas por medida, procurando equilibrar a compra de produtos nacionais com peças de países como a Holanda e a Itália, para garantir diferenciação e acompanhar uma concorrência cada vez mais forte, incluindo ‘players’ internacionais de eletrodomésticos e móveis.Lígia Andrade lembra que, quando começou a trabalhar, o mundo dos eletrodomésticos era “muito sujo” e “muito masculino” e que terá sido das poucas mulheres a trabalhar na zona dos Valados. A partir desse contexto, foi construindo um sonho próprio: transformar espaços frios de exposição em ambientes acolhedores e completos, aproximando o negócio do universo da Arquitetura e da decoração, que sempre a fascinou.“Estamos a trabalhar com empresas da Holanda e de Itália (...) para fazer a diferença, para ter um produto diferente (...). daí termos de ter os programas de design que já estamos a elaborar, tal como os das cozinhas, para apresentar em 3D”, revelou.Da necessidade de dar saída ao stock difícil de vender nasce a Frijoc Investimentos Turísticos, empresa dedicada ao arrendamento de espaços comerciais e habitacionais, alojamento local e compra, remodelação e venda de imóveis. A lógica é simples: aquilo que a loja tem dificuldade em vender em contexto de exposição pode ser integrado em casas de arrendamento ou alojamento local, criando valor e diferenciando o produto.Atualmente, o negócio conta com cinco lojas Frijoc e uma equipa jovem, onde também trabalham um dos filhos de Lígia Andrade e a nora, o que traz segurança e continuidade.Numa época em que o arrendamento se torna um mercado muito apetecível, a empresa passa a oferecer casas bem decoradas, com televisões de ecrã plano, ar condicionado e conforto acima da média - características que ajudam a captar inquilinos e a posicionar a marca como referência em habitação equipada.Com a “moda” do alojamento local, Lígia Andrade e o marido começam também a investir nesse segmento, primeiro de forma presencial - com os check-in em pessoa e muito trabalho operacional - e, mais tarde, aproveitando as novas tecnologias: fechaduras eletrónicas, gestão remota e comunicação online com hóspedes, respondendo ao desejo destes de autonomia e rapidez. Hoje, a Frijoc Investimentos Turísticos soma cerca de 30 unidades de alojamento local e cerca de 20 imóveis em regime de arrendamento, entre comercial e habitacional.Entre a exigência dos negócios e a vida familiar, Lígia Andrade reconhece ter duas versões de si mesma: a empresária incansável e a avó dedicada.“Sou duas Lígias, como costumo dizer. Não paro, mas às vezes sinto-me um polvo, com tentáculos em todo o lado. O meu dia começa às sete da manhã, a gerir cozinhas, eletrodomésticos, alojamento local, arrendamentos… Mas quando vou ter com as meninas, aí já sou outra — uma Lígia mais serena, a que se senta no chão para brincar, faz barquinhos de papel e desenhos com elas”, descreve.E sobre as suas duas netas (de 7 e 3 anos), a empresária fala com orgulho e um brilho nos olhos ainda que refira, com senso crítico, como as crianças de hoje são mais exigentes, vivem rodeadas de doces e ecrãs e têm uma relação diferente com as tarefas domésticas e o tempo livre, em contraste com a sua própria infância.