Solução para sem-abrigo passa por habitação e prevenção
22 de ago. de 2025, 17:09
— Lusa/AO Online
Segundo a
contabilização mais recente, a 31 de dezembro de 2023 havia 13.128
pessoas a viver na condição de sem-abrigo, mais 23% do que em 2022,
entre as quais 4.871 a viver na Área Metropolitana de Lisboa (AML).Para
Cristiana Merendeiro, o aumento aconteceu porque “não se respondeu a
esta problemática com aquilo que é essencial, que é a habitação”,
defendeu, em entrevista à agência Lusa.De
acordo com a responsável, a realidade atual é feita de admissões em
albergues, que são respostas de emergência que deveriam existir apenas
“em pequeno número”, sem que depois haja a devida transição para
respostas de longo prazo.“A pessoa (…)
realmente não deve ficar uma noite sequer na rua, deve ter logo acesso a
essa resposta, mas é preciso transitar rapidamente dessa resposta para
uma de logo prazo e isso é o que está a falhar”, considerou a
responsável.Na opinião de Cristiana
Merendeiro, faltam, não só respostas de longo prazo que envolvam
habitação, mas também respostas de prevenção, em vez de uma resposta
focada essencialmente na emergência.Apontou
que na cidade de Lisboa existem 400 apartamentos para projetos
Housing-first, um modelo que assegura habitação individual com
acompanhamento, mesmo para quem tem problemas de saúde mental ou
dependências, 140 dos quais geridos pela CRESCER.Questionada
sobre qual seria o número ideal de apartamentos, Cristiana não hesita
em afirmar que se na AML existem “cerca de quatro mil” pessoas em
situação de sem-abrigo, então seria “exatamente esse número de
habitações” que seria preciso.“É preciso
dar uma resposta já a estas pessoas que estão em situação de sem-abrigo
e, a par disso, começar a implementar projetos de prevenção” para que as
pessoas não venham parar à rua, defendeu.E
avisou que se isto não for feito, não haverá outras soluções: “Não
podemos estar a tentar resolver uma situação que, como o próprio nome
indica, se prende com a falta de habitação”.Para
Cristiana Merendeiro, este é um problema que já deveria ter sido
abordado “há muitos anos” e deveria ter tido políticas “muito diferentes
daquelas que tem tido”.“Se nós
continuarmos com respostas de emergência, não vamos conseguir estancar
este fluxo. Estamos sempre a falar de um fenómeno de pobreza, só que
hoje em dia o fenómeno de pobreza são pessoas que têm um trabalho e que
não conseguem pagar uma habitação”, alertou a responsável.A
coordenadora da CRESCER admitiu que “tem havido um esforço de perceber
cada vez melhor o fenómeno”, bem como “um aumento do investimento
público” na resolução do problema, com uma tentativa de participação,
quer do poder estatal, quer do poder local.Mas na sua opinião o problema é a falta de habitação.Quanto
a outros problemas que possam estar associados, como o alcoolismo, a
toxicodependência ou a saúde mental, Cristiana Merendeiro apontou que
são iguais aos de tantas outras pessoas, e que o que faz a diferença é o
facto de a pessoa sem-abrigo “vivenciar toda esta panóplia de problemas
a partir da rua”.“Temos de começar pela
habitação como base porque a habitação não é só esta questão de pôr um
teto sobre a cabeça da pessoa, porque isso um albergue também permite, é
um lugar onde a pessoa se sente segura e onde é o próprio que
estabelece as regras e sente autonomia nas decisões que toma”, defendeu.Através do projeto “É UMA CASA – Housing First”, a associação CRESCER atribuiu uma casa a 175 pessoas nos últimos 13 anos.