Sociedade russa "está em colapso" e guerra é mais um risco
Ucrânia
10 de mar. de 2022, 16:57
— Lusa/AO Online
"Eu
penso que o meu país (Rússia) está à beira de uma 'espécie de guerra
civil', existe muito ódio na sociedade russa, uma parte dos cidadãos são
apontados como traidores, havendo um apelo para os expulsar do ensino,
das universidades", lamentou Kirill Martynov num fórum internacional."Uma
outra parte da sociedade russa está muito 'desinformada' e não sabe no
que deve acreditar. Querem acreditar num governo forte e num presidente
'inteligente e sábio', mas eu penso que estes sentimentos sobre a
realidade foram afetados e que pode haver um conflito no seio da
sociedade russa: entre as elites políticas, mas também entre os cidadãos
comuns", acrescentou o jornalista.Para
o editor do Novaia Gazeta, a sociedade russa "está em colapso",
sublinhando que o que aconteceu há trinta anos (com a queda do Muro de
Berlim em 1989) "foi apenas um capítulo do derrube do império
soviético"."Acredito
que o Estado russo pode desintegrar-se e não apenas por causa de
'agentes estrangeiros' ou de mísseis estrangeiros, mas por causa das
políticas do próprio Presidente (Vladimir Putin)", disse Martynov
durante um debate ‘online’ sobre a sobrevivência do
jornalismo independente na Rússia, organizado pelo organismo Presseclub
Concordia, com sede em Viena.Kirill Martynov participou no debate a partir da redação do jornal, em Moscovo. O
jornal Novaia Gazeta, fundado em 1993 por jornalistas independentes
russos, foi um dos poucos meios de comunicação social críticos das
intervenções militares da Rússia na Chechénia.Ao
longo dos anos tem enfrentado atos de perseguição, tendo vários
repórteres do jornal sido assassinados durante o exercício da profissão,
nomeadamente Anna Politkovskaya morta em 2006.Atualmente,
no contexto da invasão russa da Ucrânia o jornal encontra-se sujeito
às medidas legislativas de censura impostas pelo Kremlin à cobertura do
conflito. Os deputados russos aprovaram no passado dia 04 alterações ao
código penal com fortes multas e penas de prisão, entre 10 a 15 anos,
para a “difusão de informação falsa” sobre a ação das forças armadas."Na
verdade, eu penso que eles (o regime) não querem saber de leis. Na
prática podem implementar qualquer lei proposta pelo Presidente
(Vladimir Putin) em apenas um ou dois dias com o apoio total da Câmara
Baixa do Parlamento (Duma). (…) só querem saber se podem torturar as
pessoas que protestam contra a guerra", lamentou. O jornalista refere que a publicação "ainda tem muitos jornalistas a trabalhar em Moscovo", com identidade e endereço conhecido."As
autoridades sabem onde estamos e sinto que os nossos jornalistas correm
grandes perigos, nesta altura", afirmou frisando o "empenho" no
trabalho de informar os leitores, apesar das leis que visam os
profissionais, incluindo os correspondentes estrangeiros."Neste
momento sinto que não há Estado de Direito na Rússia. Se atacam o
vizinho (Ucrânia) com mísseis podem fazer o que querem. O nosso jornal
quer sobreviver e queremos defender o jornalismo independente na Rússia
e, pessoalmente, estou motivado para desempenhar o meu trabalho da
melhor forma que sei, em nome da sociedade russa e dos nossos leitores",
afirmou.Kirill Martynov
referiu ainda que a maior parte dos leitores do Novaia Gazeta tem entre
25 e 30 anos e que o jornal utiliza todos os meios físicos e digitais
para difundir as notícias. Neste
momento, disse o jornalista, a rede social You Tube é o maior meio de
transmissão de conteúdos, incluindo jornalísticos, no país,
contabilizando cinco milhões de utilizadores diários.