“Sinto que há qualquer coisa que me puxa para a ilha e que a ilha me puxa a mim”
4 de out. de 2026, 08:00
— Susete Rodrigues
As primeiras memórias de Miguel Damião estão ligadas a Moçambique. Tinha entre três/quatro anos quando, depois de o pai partir para o serviço militar, viajou com a mãe e viveu durante alguns meses naquele país. Guarda na memória imagens como um safari, os mercados, os cheiros, os cestos, os vinhos, os búzios e as conchas, e “gostava muito de lá voltar, para tentar perceber o que é que consigo reativar”. Como não poderia deixar de ser, as suas memórias passam também pela casa dos seus avós - a Senhora da Rosa, local onde recebeu a revista “Açores”. Conta-nos que “passava aqui os verões, os meus primos vinham de Lisboa e ficávamos aqui. Morávamos no Bairro da Vitória e aos domingos vínhamos aqui jantar, e quando era para ir para casa, eu não queria ir. A Senhora da Rosa era o nosso mundo, esta quinta, onde brincávamos. Recordo os lanches que a minha avó fazia, construíamos cabanas, subíamos às árvores, comíamos as frutas das árvores... as estufas dos ananases, as fogueiras de São João... Enfim, memórias que nunca mais acabam”. Esteve num colégio em Ponta Delgada, mas sentiu dificuldade em adaptar-se. A liberdade que experienciou em Moçambique parecia não caber naquele espaço. Então, fugia das aulas e, muitas vezes, acabava junto de um pastor alemão que vivia no colégio. “Elas iam-me apanhar agarrado ao pescoço do pastor alemão”, recorda, entre risos, acrescentando que sempre esteve em “contacto muito próximo com a natureza e realmente adoro animais”.Miguel Damião não consegue precisar quando surgiu a vontade de ser ator. Refere que talvez tenha começado muito antes de pensar nisso como profissão, “quando imitava o Herman José nas festas de Natal da família. Tenho um tio que puxava muito por nós (...). A certa altura os meus pais ofereceram-me uma máquina de filmar. Lembro-me de fazer telenovelas, episódios, filmes com a minha irmã e com os meus primos. Escrevia os créditos em cartolinas e fazia questão de os colocar antes das filmagens”. Uma brincadeira que acabou por ficar adormecida durante alguns anos, até reaparecer já em Lisboa, onde trabalhava como repórter fotográfico (Diário de Notícias e Correio da Manhã). Nessa altura descobriu a Arte 6, escola de técnicas de televisão. Conta-nos que inventou uma desculpa para faltar ao trabalho e “fui fazer a audição. Fiquei, e a partir daí começou tudo”. A fotografia deixou-lhe uma ferramenta que ainda hoje utiliza. Afirma que aprendeu a olhar para uma imagem, para os seus enquadramentos, linhas de força, e transportou esse conhecimento para o palco. Na encenação de ‘Filhos de Alguém’ - que estreou no Teatro Micaelense, no qual é encenador e diretor artístico - por exemplo, teve em conta “as linhas onde os atores se movem e isso vem do enquadramento da fotografia”.Dos seus primeiros trabalhos fazem parte um documentário ficcionado, ‘Uma aventura no teatro’. Integrou a primeira temporada de “Morangos com Açúcar”, seguiu-se uma audição para “O Olhar da Serpente”, onde conquistou um papel. Por essa altura, “já tinha feito o curso de dois anos da Arte 6, onde conheci o António Terra que criou um grupo de teatro com alguns alunos e estivemos muito tempo em Lisboa, num armazém em Benfica, a ensaiar”. Mas, a televisão obrigou-o, entretanto, a interromper esse percurso temporariamente. A sua estreia no teatro aconteceu em São Miguel, no Teatro Ribeiragrandense, com “A Mão na Luva”, encenada por António Terra. Já em Lisboa, participou em “O Bobo e a sua Mulher Esta Noite na Pancomédia”, no Teatro Aberto, numa produção de João Lourenço que teve temporadas prolongadas em Lisboa e no Porto. Só depois é que ingressou na Escola Superior de Teatro e Cinema. Ainda durante o curso começou a trabalhar com companhias e criadores. O cinema chegou um bocadinho mais tarde.Entre os trabalhos televisivos que mais guarda na memória está o ‘Último a Sair’, porque, “além de ter feito de açoriano, que a mim diz-me muito poder representar os açorianos, foi um desafio, porque a escrita do guião para o meu personagem foi toda refeita por mim, porque eles não tinham conhecimento das expressões açorianas”, contou. O formato exigia uma grande capacidade de improvisação, porque “estávamos num estúdio com um cenário igual ao Big Brother, as câmaras estavam por detrás dos vidros e não sabíamos quando é que estávamos a ser filmados (…). Mas, gosto muito de trabalhar na base da improvisação”, admite. Nos últimos anos, outros projetos ligados aos Açores ganharam, igualmente, um significado especial. É o caso de “Azul” e de “Rabo de Peixe”. Trabalhar nas ilhas e em histórias relacionadas com a sua terra natal acrescenta-lhe “um outro gostinho especial”. ‘A Travessia’ também “foi um projeto muito gratificante para mim. Quase inconsciente ou não, inspirei-me no meu avô para fazer aquele papel, porque o meu avô materno, era militar, coronel, não era da Marinha, mas o facto de ter uma farda vestida...”. Miguel Damião não escolhe facilmente entre televisão, cinema e teatro, isto porque “adoro o momento de receber um texto novo”, seja para qual área for, “é sempre como estar a desembrulhar uma prenda. Ler as palavras, descobrir como as vou dizer e procurar a personagem, é um trabalho fantástico de descoberta”. Ainda assim, reconhece uma magia particular ao teatro, pela proximidade com o público que torna cada espetáculo único. A passagem para a encenação surgiu como uma evolução natural. Miguel Damião afirma que sempre se interessou pelo processo criativo: “Para muitos atores é um caminho natural de uma evolução ou de um canalizar os interesses para ir mais além, porque o trabalho como ator é muito numa esfera micro e o trabalho de um encenador, de um realizador, é de uma esfera macro, onde se vai tomar as rédeas do processo criativo (...)”.Confessa que em “Filhos de Alguém”, essa dimensão tornou-se particularmente evidente e “gosto de estar deste lado de cá”. Há também uma componente pessoal nessa mudança. Ao longo da carreira, “vesti a camisola de todos os projetos, embora nem sempre tenha concordado com todas as decisões”. Algumas opiniões foram partilhadas, outras ficaram guardadas. Agora, do lado da encenação, pode assumir as decisões do processo criativo. “Para bem ou para mal, a responsabilidade é minha”. A ligação de Miguel Damião aos Açores estende-se também à reflexão sobre o setor cultural. Considera fundamental que as entidades governamentais mantenham um diálogo próximo com os agentes que trabalham no terreno. A insularidade é outro dos problemas estruturais que identifica. A deslocação de companhias e elencos de grandes dimensões para os Açores implica custos elevados, tornando mais difícil a concretização de determinados projetos. Por isso, aproveita para agradecer à Senhora da Rosa, porque “foi o grande patrocinador dos ‘Filhos de Alguém’. Foi aqui que os atores ficaram alojados, tiveram as refeições. A Senhora da Rosa, independentemente de ser minha ou da minha irmã - é justo que se faça essa ressalva - transposto para valores financeiros, é um grandessíssimo apoio”.Há quase quatro anos, Miguel Damião decidiu regressar aos Açores depois de um longo período em Lisboa. A decisão foi pessoal, mas a ligação à ilha já estava profundamente enraizada. “Sinto que há qualquer coisa que me puxa para a ilha e que a ilha me puxa a mim - ou é o mar, não sei”, confessa, acrescentando que “este momento é o melhor dos dois mundos. Estou cá a carregar baterias quando preciso de estar mais parado, estou cá a desenvolver projetos, como aconteceu agora, tenho estado a fazer outras coisas cá e quando sou chamado para Lisboa, vou para Lisboa de baterias carregadas, que é o melhor”. Se se imagina a fazer outra coisa que não ser ator ou ser encenador? Diz-nos que a “resposta é muito direta e de certa forma óbvia. A única coisa que me faria não fazer trabalho de ator ou de encenador, seria estar aqui na Senhora da Rosa com a minha irmã, a ajudá-la, porque isto pertence à família, sempre pertenceu à família. É como disse, cresci aqui neste chão. Portanto, isto diz-me muito, sangue do meu sangue. O sangue é uma coisa muito forte, as relações de sangue, e eu ponderaria estar aqui a ajudá-la, porque realmente também é muito trabalho”.