“Sinto-me mais em casa no Pico do que em qualquer outro sítio onde vivi”
14 de jun. de 2026, 08:05
— Susete Rodrigues
Daniel Pena nasceu em Lisboa, passou a infância no Cacém, numa época em que ainda era possível crescer a brincar na rua. Mais tarde mudou-se para a zona de Mafra e Ericeira. Recorda que “brincávamos muito na rua, eu e a minha irmã, porque, embora vivêssemos no Cacém, ainda era uma zona muito calma da cidade, portanto, tive uma infância com muito tempo na rua, que é um privilégio para uma cidade”, acrescentando que “sempre me recordo de fazer muito desporto, sempre muito ligado à natureza”.Confessa que não tem memória de ter algum relacionamento “com música, dança, nada”. Curiosamente a música e a dança, surgem quando Daniel Pena chega aos Açores, à ilha do Pico, em janeiro de 2009. Licenciado em Engenharia Multimédia no ISTEC- Instituto Superior de Tecnologias Avançadas de Lisboa, veio para a o Pico – sem saber que era para a ilha montanha - trabalhar como programador numa empresa dedicada ao desenvolvimento de estações meteorológicas e marégrafos. “Quando apareceu esta possibilidade de trabalho, só sabia que era nos Açores. Assumi que seria em São Miguel, porque tinha um grande amigo. Só depois de tudo estar acertado é que percebi que era em outra ilha”, lembra, sublinhando que “foi uma decisão feliz”. Não se esquece do dia em que chegou ao Pico. Recorda que “estava um dia espetacular. Via-se a montanha, não havia nuvens... no dia a seguir começou a chover torrencialmente (…)”. A sua integração foi facilitada pelo ambiente acolhedor que encontrou e pelas amizades que rapidamente construiu. Diz que “hoje sinto-me mais em casa no Pico do que em qualquer outro sítio onde vivi”. Pouco depois de chegar ao Pico, um amigo sugeriu-lhe três formas de conhecer pessoas, nomeadamente futebol, filarmónicas ou grupos folclóricos. A sua escolha parecia óbvia, até porque tinha sido atleta federado de futsal durante a adolescência. Contudo, a curiosidade acabou por levá-lo à música. Refere que “foi engraçado, porque comecei nesse mesmo ano a tirar solfejos - era a forma, naquela altura, de aprender a música nas filarmónicas - (…) recordo que comecei com o trompete, porque o professor de música da filarmónica - Sociedade Filarmónica União e Progresso Madalense - era trompetista, o Márcio Costa”. No entanto, a experiência não durou muito tempo, “não me identificava com o instrumento. Quando experimentei o saxofone, foi diferente. Gostei do timbre, da vibração e rapidamente se tornou uma paixão. Como tinha um horário reduzido no trabalho, ia para a sede da filarmónica e tocava muitas horas”. A música tornou-se uma presença constante na sua vida, levando-o mais tarde a aprofundar conhecimentos junto do saxofonista Hélder Alves. As danças vieram muito mais tarde. “É algo relativamente recente na minha vida”, afirma para confessar que “por alguma razão, sempre me senti muito atraído pela chamarrita. Acho que qualquer pessoa que vê uma chamarrita do Pico ser bailada sente vontade de entrar. Acho que é muito difícil não ter essa vontade porque é uma dança muito alegre, muito dinâmica” e às vezes lá se arriscava. Refere que naquela altura “não havia nenhum sítio para se aprender só a chamarrita. A única forma era juntar-me a um grupo folclore, mas tinha que aprender imensas danças (…)”. A mudança aconteceu há cerca de três anos, quando Jean Daniel, “um francês que foi professor no conservatório de Paris e que está a viver lá no Pico, a fazer um trabalho muito bonito com a comunidade em várias áreas, começou a dar a chamarrita em sua casa”. Durante cerca de dois meses, Daniel Pena frequentou as sessões e começou a compreender a estrutura da dança. Depois, “quando havia uma noite de chamarrita, íamos, bailávamos, a certa altura ele saía da roda, observava-me e dava-me feedback. Isso ajudou-me porque sabia exatamente onde estava a falhar. Num espaço de três ou quatro meses estava a bailar como se bailasse à muito tempo. Em poucos meses ganhou confiança e passou a dominar os movimentos e os mandos da chamarrita. Mais tarde, juntou-se à Escola de Chamarrita da Filarmónica Liberdade Lajense. Pouco tempo depois, teve lugar o Festival de Danças do Mundo e, “nesse festival, foi a primeira vez que mandei uma chamarrita em público, claro que, com alguns erros aqui e ali, mas no geral correu muito bem”. O seu desempenho chamou a atenção de formadores ligados às danças tradicionais e do ‘bal folk’ em Portugal, abrindo portas para workshops em Lisboa, Coimbra, Porto, Faro, Madeira e São Miguel, e “também já dei uns pequenos workshops para pessoas que foram ao Pico e fiz uma pequena experiência em Girona, na Catalunha”, salientou.Paralelamente à música e à dança, Daniel Pena desenvolveu uma ligação à natureza dos Açores. As caminhadas pelos trilhos, especialmente no Pico e em São Jorge, despertaram uma paixão que viria a transformar-se em atividade profissional. Diz que o contacto com a natureza que “existe nos Açores é algo muito especial. Sinto-o de uma forma que não encontro noutros lugares”. A agricultura surgiu, igualmente, como uma área de interesse. Apesar de ter crescido numa família ligada à restauração e à agricultura, só depois de estar nos Açores é que começou a olhar para a produção alimentar com outros olhos. Conta-nos que em 2012, surgiu esta preocupação e “procurei pessoas que fizessem agricultura biológica. Comecei a ajudar um amigo, até que cheguei ao ponto que decidi que queria aprender mais. (…) Decidi que ia sair dos Açores uma vez mais - já tinha saído em 2013 para estudar música, depois voltei - na altura fui só com bilhete de ida para o Brasil, para trabalhar em comunidades e em projetos de produção de comida”. Acabou por ficar fora mais de dois anos, “percorri os países da América do Sul. Quando estava lá, o meu patrão da altura e amigo, desafiou-me a regressar ao Pico, ele ia comprar uns terrenos e fazer cá um projeto (...)”. Aceitou, regressou ao Pico no início de 2019, e “foi aí que me tornei guia de montanha. Nessa altura estava a acontecer um curso e cheguei mesmo a tempo, voltei a dar aulas de música. Isso aconteceu durante cerca de três anos, depois, este amigo regressou ao continente (...), o projeto acabou por não ter continuidade”. Foi à procura de “um terreno por minha conta e construí a minha casa. Fui eu que a projetei, é uma casa toda em criptoméria, com muitos materiais reutilizados, funciona com painéis solares, água da chuva, para tentar ser o mais ecológico possível. Essa é uma parte muito importante na minha vida”.Entre os projetos que gostava de concretizar, Daniel Pena fala-nos da recolha e documentação das danças tradicionais do arquipélago. Quer começar pelo Pico, “estudando as diferenças entre freguesias, registando coreografias, músicas e contextos sociais associados às danças”, afirmou para acrescentar que “há coreografias que já desapareceram e outras que correm esse risco porque as pessoas que as conheciam já faleceram (...)”. Partilha ainda que gostava de criar um projeto musical com “sonoridades e arranjos mais contemporâneos”, por forma a aproximar as novas gerações, porque, na sua opinião, “é preciso encontrar formas de envolver os jovens. Há muito valor na música e nas danças tradicionais, mas é necessário criar pontes para que continuem vivas no futuro”.