Síndrome paralisante está a afetar aves marinhas da Ilha Deserta

12 de out. de 2024, 10:26 — Lusa

“O que nós mais encontramos na Ilha Deserta, que não foi nenhuma surpresa, são aves paralisadas, é o que nós chamamos síndrome parético”, adiantou Maria Casero, frisando que se trata de uma síndrome paralisante motivada por “uma intoxicação alimentar que afeta as duas espécies mais comuns de gaivotas, a gaivota de patas amarelas e a gaivota de asa escura”. A veterinária é a responsável clínica pelo tratamento das espécies recolhidas pelo RIAS para recuperação e eventual libertação na natureza, entidade sediada no Parque Natural da Ria Formosa, em Olhão, e que é parceira do projeto Life Ilhas Barreira, coordenado pela Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA).Questionada sobre o que está a causar a parálise nessas aves, Maria Casero respondeu que se trata, “em princípio, de uma intoxicação alimentar”, por as “gaivotas estarem a comer ou a beber algo em algum sítio onde há uma toxina”, mas sublinhou que a fonte “ainda não está identificada”.A responsável destacou que, no âmbito do projeto Life Ilhas Barreira, no que respeita à reabilitação de aves, foi possível melhorar as instalações para aves marinhas, nomeadamente piscinas, e desenvolver protocolos para uma melhor recuperação das aves marinhas, “que costumam ter umas taxas de sucesso mais baixinhas que o resto das aves”. A diretora clínica do RIAS frisou que outra das contribuições do centro para o projeto passou por avaliar as principais ameaças e causas de morte, através da recuperação de animais e da realização de necrópsias que permitissem perceber quais eram as principais ameaças das aves marinhas na área da Ria Formosa.“Eu listei as causas todas, da mais frequente à menos frequente, e quais eram as espécies mais afetadas por cada causa de ingresso”, afirmou, frisando que os dados trabalhados são relativos às causas de ingresso de aves da Deserta e da Culatra, duas das principais ilhas barreira da Ria Formosa.Segundo a veterinária, como a Ilha Deserta não tem praticamente circulação de pessoas, muitos animais mortos chegam já decompostos ao RIAS e os técnicos do centro não conseguem saber a causa de morte exata de todas, embora possam identificar se “têm algum fio ou alguma fratura” para eliminar possíveis causas. “Dessas aves muito decompostas, só algumas conseguimos saber a causa de morte, outras são desconhecidas”, esclareceu.A diretora clínica do RIAS disse que os dados estão disponíveis nos relatórios anuais de atividades do centro, que listam todas as espécies, mas frisou que o RIAS tem uma área de atuação muito maior, porque “recebe animais do Sul do país” e que os dados relativos ao projeto incidem mais sobre a Deserta “porque a Culatra tem muito menos animais”, devido à presença humana.Por isso, Maria Casero destacou a importância de projetos como o Life Ilhas Barreira, que permitem ao RIAS obter financiamento para estudos científicos, recursos que disse não serem fáceis de obter e que muitas vezes ficam condicionados, pois a prioridade do centro é a recuperação das aves e dos animais que acolhe.