Sindicatos criticam Governo e SATA pela gestão da privatização
12 de set. de 2025, 09:27
— Nuno Martins Neves
A pouco mais de três meses do prazo para a conclusão da privatização da
Azores Airlines, o processo parece tudo, menos bem encaminhado. As
recentes declarações do vice-presidente do Governo Regional dos Açores,
do secretário regional das Finanças e do consórcio Newtour/MSAviation
deixaram três sindicatos em autêntico pé de guerra.Começando pelo
Sindicato de Pilotos da Aviação Civil (SPAC) que classificou de “falsa e
inaceitável” as declarações públicas do consórcio, à Antena 1 Açores,
imputando aos pilotos da Azores Airlines um alegado bloqueio à
privatização da companhia, por não aceitarem a proposta de redução de
10% da massa salarial dos pilotos.Em comunicado, a que o Açoriano
Oriental teve acesso, o SPAC recorda que mantém a posição favorável à
privatização, “cumpridas que sejam as idoneidades financeira, técnica e
laboral do comprador”.Uma tomada de posição que surge após uma
reunião entre a força sindical e o consórcio, a pedido desta última, e
que lhe apresentou reduções de condições de trabalho como ferramenta
para o período pós-privatização.“O SPAC deixou claro que apenas
poderia considerar analisar soluções no quadro figurado de “dar um passo
atrás para, em momento definido, dar dois em frente”, sempre com
garantias, prazo e condições futuras quantificadas, com aplicação
transversal a toda a empresa e sujeitas a aprovação em Assembleia. Fora
deste enquadramento, não há negociação”, lê-se.O sindicato esclarece
que manteve apenas “conversas exploratórias” com o consórcio sobre
aspetos da contratação coletiva, nunca tendo apresentado propostas ou
feito qualquer negociação.Contudo, o consórcio remeteu,
unilateralmente, diz o SPAC, um documento em que a massa salarial dos
pilotos sofra um corte de 10%, proposta que o SPAC rejeita. “Os
pilotos não bloqueiam a privatização. Exigimos propostas formais,
verificação de idoneidades e respeito pelo Acordo de Empresa. Sem
mandato da Assembleia e sem garantias claras - prazo e benefícios
quantificados, aplicáveis a toda a empresa — não há negociação”, afirmou
o vice-presidente do sindicato, Frederico Saraiva de Almeida, citado no
comunicado.Desta forma, os pilotos entendem que não podem ser
responsabilizados por eventual insucesso do processo de privatização por
não aceitarem o corte da massa salarial. “Essa responsabilidade cabe a
quem conduziu o processo e a quem apresentou propostas sem aparentemente
conhecer, com rigor, a estrutura de custos da empresa”, rebatem,
acrescentando que não se deixarão “pressionar por ameaças de fecho da
empresa para aceitar reduzir o valor do nosso trabalho”.Por sua vez,
o Sindicato Nacional do Pessoal de Voo da Aviação Civil (SNPVAC)
insurge-se contra as declarações proferidas por Duarte Freitas, em
plenário na Horta, que consideram ser um “ultimato aos trabalhadores”,
tendo já solicitado uma reunião de urgência com o executivo.“Estas
palavras não só são lesivas da imagem do Grupo, como provocam uma
inevitável desvalorização das suas Empresas e prejudicam grandemente a
Região e os interesses dos Açores. Se é certo que não podemos cair em
alarmismos, a verdade é que estas declarações - aliadas aos recentes
episódios de processamento de vencimentos - são demonstrativas do
momento delicado que o Grupo SATA atravessa”, afirma o sindicato em
comunicado.Remetendo as culpas da situação atual da companhia para
os sucessivos governos regionais e conselhos de administração, “nomeados
por esses mesmos governantes”, com opções estratégicas e de gestão -
interna e externa - que se têm revelado “ruinosas”. Apesar do
ultimato, o SNPVAC recusa “passar cheques em branco, seja ao Governo
Regional dos Açores, ao Conselho de Administração ou a qualquer
potencial interessado na compra da Azores Airlines. Uma política de medo
em nada contribuirá para a colaboração que qualquer acionista da
Empresa precisa por parte dos seus Trabalhadores”.Por último, o
Sindicato dos Trabalhadores e Aviação (SITAVA) foi mais longe, pedindo
que haja demissões, quer no Governo Regional, quer no Conselho de
Administração da companhia açoriana. Em comunicado, entendem que as
declarações do secretário regional das Finanças, bem como as de Artur
Lima, são demasiado graves para passar incólumes.Sobre o
vice-presidente, afirmam que “arvorado em diretor de operações da
companhia”, anunciou novas rotas ou o reforço das ligações entre Boston
(Estados Unidos da América), Terceira e Praia (Cabo Verde), “quando é do
conhecimento geral, e dele também, que as diversas rotas internacionais
com ligação à TER são manifestamente deficitárias na maioria dos voos
da sua operação”.Considerando que “gerir mal e responsabilizar os
trabalhadores, além de mais não é digno de responsáveis governamentais”,
o SITAVA aponta baterias ao conselho de administração liderado por Rui
Coutinho, sobre quem diz ter falhado nos objetivos de reestruturar a
empresa, que visavam a otimização dos recursos e redução substancial dos
encargos. “Ora estas medidas, anunciadas com pompa e circunstância, ou
nunca saíram do papel ou não produziram qualquer contributo, direto ou
indireto, para o objetivo anunciado”.O sindicato diz que, passado
mais de um ano após a nomeação do novo conselho de administração, a
situação da SATA “é público e notório está muito pior do que estava,
tudo se agravou ao ponto de até o único candidato à compra já coloca em
causa a continuidade do negócio”.