Sindicatos alertam que aumento no pagamento a médicos tarefeiros cria mal-estar
16 de mai. de 2024, 10:53
— Lusa/AO Online
Segundo um despacho de delegação
de competências publicado este mês no Diário da República, os órgãos
máximos dos estabelecimentos e serviços integrados no Serviço Nacional
de Saúde podem, “em situações excecionais devidamente fundamentadas”,
aplicar um pagamento de valor/hora superior ao previsto, até ao limite
de 40%.A Federação Nacional dos Médicos
(FNAM) avisa, em comunicado, que este aumento “acentua o desequilíbrio
que já existe entre os vencimentos dos médicos do SNS e prestadores de
serviços”, vai desincentivar a fixação de médicos no SNS e contribuir
para a saída de profissionais de um regime para o outro, com prejuízo
dos serviços de saúde públicos e capacidade de resposta à população. Em
declarações à agência Lusa, o secretário-geral do Sindicato
Independente dos Médicos (SIM), Nuno Rodrigues, também criticou esta
medida, considerando que vai criar mal-estar entre os profissionais.“Na
verdade, esta possibilidade já existia. O que se trata neste caso, é de
uma agilização para as Unidades Locais de Saúde (ULS) mais rapidamente
conseguirem ter essa autorização. O problema continua a ser uma questão
de igualdade”, salientou.Para Nuno
Rodrigues, não se pode aceitar que estejam dois médicos a trabalhar
“lado a lado”, um com contrato de trabalho com o SNS e outro prestador
de serviço, e que um receba mais de 70 euros por hora e outro, por
exemplo, um médico assistente no início da carreira, receba 18,93 euros
por hora.Se os especialistas que estão à
espera há um mês e meio da abertura de um concurso para ficarem no
Serviço Nacional de Saúde forem ver o valor hora que é oferecido neste
momento na carreira médica e o valor hora para os prestadores de serviço
“começam a pensar que, se calhar, realmente não vale a pena ficar no
SNS, elucidou. Para o dirigente sindical, é
preciso que o Governo, na próxima reunião negocial, dê “um forte sinal
de que quer fazer uma alteração estrutural”, não só nos salários, mas
também ao nível da celeridade dos concursos, da penosidade e do número
de horas de urgência que os médicos têm de fazer todas as semanas.A
FNAM acrescenta no comunicado que, apesar de ainda não ser público o
plano para as urgências no verão, “menos ainda o do inverno”, a decisão
do Governo “passa por dar continuidade a uma política de remendos”.Desta
forma, em vez de apresentar “soluções estratégicas e de futuro para
fixar médicos no SNS”, o executivo apenas contribui “para acentuar os
problemas estruturais do SNS”, considera a FNAM.Para
a federação, o aumento do valor hora pago a prestadores de serviços
conduz ao reforço da externalização dos serviços que o SNS devia estar
capaz de assegurar, “sendo que um aumento desta proporção é um convite
explícito para que os médicos, mal pagos e sem condições de trabalho,
troquem o seu lugar no SNS pela prestação de serviços”. Salienta
ainda que esta política tem “provas dadas no terreno médico”, como
“equipas desfeitas e desestruturadas”, “desequilíbrio entre
profissionais que, pelo mesmo trabalho, recebem valores muito
diferentes” e “falta de capacidade e previsibilidade na construção das
escalas, que, apesar do aumento dos custos, manterá o SNS com falta de
médicos”.