Sindicato pede portal nacional para denúncia de assédio em meio académico
13 de abr. de 2023, 18:13
— Lusa
O Sindicato Nacional de Ensino Superior (SNESup) criticou a
existência de canais de denúncia geridos internamente pelas
instituições, defendendo em alternativa um portal nacional que garanta o
anonimato das alegadas vítimas e de quem é acusado.
O
SNESup disse que os modelos de denúncia que estão a ser implementados
em algumas instituições de ensino superior para tentar combater os casos
de assédio sexual e moral, defendendo que esses canais podem não
transmitir a segurança necessária para quem quer fazer queixa nem
garantir o anonimato do acusado.“Deveria
ser criado um portal nacional e nunca um mecanismo gerido internamente”,
disse à Lusa o professor Romeu Videira, explicando que as Instituições
de Ensino Superior (IES) são “meios muito pequenos”, onde “toda a gente
se conhece”. “É necessário proteger o
anonimato das vítimas e dos denunciantes. Com um portal interno, o
“diz-que-disse” onde toda a gente se conhece faz com que todos acabem
por saber quem fez a denuncia e quem é a vítima”, alertou o elemento da
direção do SNESup.O docente teme que os
modelos que estão a ser aplicados pelas instituições - formulários
‘online’ ou linhas telefónicas - possam afastar eventuais queixosos por
temerem ser identificados e sofrerem represálias.Além
disso, o docente sublinhou que é preciso também preservar o anonimato
dos acusados, lembrando que podem ser injustamente incriminados e ficar
“com a sua imagem pública prejudicada para sempre”.“É
preciso garantir que qualquer pequena suspeita ou rumor não se
transforma num caso que possa destruir as carreiras profissionais”,
corroborou o presidente do SNESup, José Moreira.Romeu
Videira alertou ainda para uma eventual fragilidade no tratamento das
denúncias: “É um portal anónimo, mas há alguém que abre as denúncias.
Imaginemos que o caso em particular é contra uma pessoa de topo na
instituição. Será que o funcionário tem o mesmo comportamento como se
fosse para outra pessoa qualquer?”.Para o
docente, o Ministério do Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (MCTES)
deveria criar um portal nacional de denúncia, em vez de recomendar às
instituições a criação dos seus próprios canais.O
Ministério do Ensino Superior assim como a Inspeção-Geral de Educação e
Ciência revelaram hoje que não receberam qualquer queixa de assédio
sexual nos últimos quatro anos, nem conhecem qualquer caso judicial
envolvendo professores ou investigadores de universidades ou
politécnicos.O SNESup defende também que
deveria existir um serviço de apoio psicológico externo para as vítimas:
“Este tipo de crimes deixa marcas psicológicas graves que a resolução
do caso não apaga”, defendeu.À Lusa, José
Moreira revelou que o sindicato recebe “dezenas de queixas de assédio”
moral todos os anos e que os serviços jurídicos não têm mãos a medir.“O
ambiente académico é de facto muito propício a que exista este tipo de
casos, por causa das relações de poder muito fortes”, lamentou José
Moreira.Outro dos problemas identificado
por Romeu Videira prende-se com o facto de cada instituição criar o seu
próprio código de conduta, em vez de existir um código nacional igual
para todos.Para o professor da
Universidade do Porto, a criação de regras locais pode levar a que numa
instituição um ato seja considerado condenável e, na instituição ao
lado, a mesma situação seja aceite.A
posição dos dois sindicalistas surge na sequência da divulgação esta
semana de alegados casos de assédio sexual no Centro de Estudos Sociais
da Universidade de Coimbra praticados por dois docentes: o sociólogo
Boaventura Sousa Santos e o antropólogo Bruno Sena Martins, que negaram
as acusações.Na quarta-feira, a Federação
Académica de Lisboa (FAL) alertou também para as falhas no funcionamento
dos canais de denúncia de assédio das instituições, considerando que
muitas “não estão preparadas para agir” quando surgem casos.A
maioria destes serviços surgiu na sequência dos polémicos casos de
assédio ocorridos na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa.Há
exatamente um ano, um relatório do Conselho Pedagógico da Faculdade de
Direito da Universidade de Lisboa dava conta de 50 queixas de assédio e
discriminação recebidos em apenas um mês.Também
a FAL realizou um inquérito em dezembro do ano passado que veio revelar
que dois em cada dez estudantes universitários já tinham sido vítimas
ou testemunhas de casos de assédio.