Sindicato diz que nova prisão de São Miguel é “caso de polícia”
Hoje 09:40
— Nuno Martins Neves
Nem estabelecimento prisional, nem bagacina removida. Foi desta forma
que o Sindicato Nacional do Corpo da Guarda Prisional (SNCGP) encontrou a
Mata das Feiticeiras, na Lagoa, local onde está previsto a construção
da nova cadeia de São Miguel, no valor de 50 milhões de euros e com
arranque previsto para 2027.Para o presidente do sindicato,
Frederico Morais, a situação é “vergonhosa” para o Estado Português, mas
não só: entende o sindicalista que há motivos para uma investigação
judicial a todo o processo.“É lamentável que todos os anos se
coloque no Orçamento de Estado o dinheiro para o novo estabelecimento
prisional, mas como podemos comprovar, está tudo igual. Nada indica que a
obra vá começar, porque a bagacina ainda lá está. O que me preocupa,
como representante do corpo da guarda prisional, além da falta de
segurança que o Estabelecimento Prisional de Ponta Delgada tem
atualmente, é o negócio ruinoso, que muito provavelmente é um crime
económico, de fraude”.Em causa a remoção de 1,5 milhões de metros cúbicos de bagacina do local, por 3 milhões de euros, que terminou em maio de 2023.Questionado
se equacionaria avançar com uma queixa no Ministério Público, Frederico
Morais afirmou que a situação já é do conhecimento das autoridades
judiciais. “Estivemos aqui há um ano e meio, foi feita uma mesa redonda
por causa da camarata onde estavam mais de 50 reclusos. E o Ministério
Público esteve presente a assistir. Para denunciar um crime, não é
preciso ser por escrito: tendo conhecimento, é obrigatório, porque é
dinheiro público!”.Frederico Morais entende que a Mata das
Feiticeiras não tem condições para albergar um estabelecimento
prisional, exortando o Governo Regional dos Açores a encontrar outro
espaço, mais adequado e próximo de Ponta Delgada.Para o presidente do
SNCGP, o processo da nova cadeia de São Miguel está parado por falta de
vontade política. “Está-se à espera que aconteça uma tragédia a nível
nacional - como aconteceu em Espanha, onde uma funcionária foi morta-
para podermos olhar a sério para o sistema prisional. [A fuga de
reclusos do Estabelecimento Prisional] Vale de Judeus aconteceu faz
agora dois anos em setembro, e continua quase tudo igual nas cadeias”.O
sindicalista mostra-se muito crítico da atuação dos últimos dois
governos do PS, afirmando mesmo que não foi investido “um cêntimo” no
sistema prisional, revelando que a atual ministra da Justiça, Rita
Júdice, tem tido outra postura, “mas esbarra sempre no Ministério das
Finanças, que só vê números. Nós vemos pessoas”.Com Portugal
recorrentemente condenado pelo Tribunal Europeu dos Direitos Humanos
devido à falta de condições nas suas cadeias, Frederico Morais defende
que haja uma mudança de perspetiva quanto ao sistema prisional,
defendendo que se olhe “como um investimento - tal como fizeram outros
países europeus - e procurá-lo rentabilizar, com reclusos a trabalhar.
Não é como aqui [em Ponta Delgada], que os reclusos têm aulas de reiki e
de ioga”.