Sindicato diz que a transição para a Vale do Ave Açores já motiva cartas de demissão

Hoje 08:49 — Daniela Arruda

Nem todos os motoristas que constam das listas de transição para a nova concessionária Vale do Ave Açores deverão manter a sua decisão de mudar de empresa. Cerca de 70 trabalhadores estão envolvidos neste processo, mas há motoristas que estão a ponderar entregar a carta de demissão e aceitar propostas de outras empresas, alerta o Sindicato dos Profissionais dos Transportes, Turismo e Outros Serviços de São Miguel e Santa Maria (STTOSSMSM).“Já tem uma carta ou outra de demissão feita”, revela Nuno Amaral, presidente do sindicato, ao jornal Açoriano Oriental.O dirigente explica que há muita procura por motoristas, sobretudo de empresas ligadas ao turismo e até à construção civil. Ou seja, aumenta a concorrência entre os empregadores e dá também mais margem de escolha aos trabalhadores. Segundo Nuno Amaral, as listas de transição incluem cerca de 25 motoristas da Caetano, Raposo & Pereira, 30 da Auto Viação Micaelense e 15 da AçorGo, o que faz um total de aproximadamente 70 trabalhadores. Mas avisa que esse número pode não ser a realidade no dia 1 de setembro.A Vale do Ave Açores refere, numa nota de imprensa, que são necessários “aproximadamente 130 colaboradores” para assegurar a operação. Pelas contas do sindicato, ainda faltam alguns, mesmo que se esteja a contar com a confirmação dos cerca de 70 motoristas que constam das listagens de transição.“O Governo não pode assobiar para o lado”, defende Nuno Amaral. Segundo o sindicalista, as condições de trabalho pesam na decisão de muitos destes profissionais. Recorda que há motoristas que chegam a fazer jornadas de 13 horas para assegurar o serviço público e compara essa realidade com outras ofertas que existem no mercado.“Diz-lhe assim: quer transitar para ir fazer carreiras e estar 13 horas fora de casa, sai de casa às seis da manhã e chega às oito da noite, às vezes até mais tarde. Ou prefere estar numa empresa de turismo, entrar às nove da manhã e às seis ou sete da tarde estar despachado?”, exemplifica. Apesar de a Vale do Ave Açores oferecer um acréscimo de cerca de 80 euros mensais aos trabalhadores com mais de dez anos de casa, alterando o regime remuneratório de diuturnidades para níveis, a verdade é que mesmo assim, segundo Nuno Amaral, nem todos consideram que a mudança compensa.Outra das preocupações tem a ver com a possibilidade de deixarem de fazer as carreiras que sempre fizeram. O dirigente diz que a empresa já explicou aos trabalhadores que os mesmos podem ser colocados em percursos diferentes dos que hoje fazem. “Muitos não estão a dizer ‘sim’ por uma questão de conforto”, refere. Lembra que a transição é “automática” e consta do próprio caderno de encargos do concurso público: “Os  motoristas vão ser abrangidos, mas o processo não os protege, nem lhes dá conforto”, afirma. Férias estão em risco?Além da transição, o sindicato alerta para as férias dos motoristas. A falta de profissionais levou a que as empresas atuais adiassem o gozo de férias até 31 de outubro: “Aí sim posso dizer que 90% dos que vão transitar ainda têm férias por gozar”, diz. O sindicato diz que propôs que os trabalhadores abdicassem de dias e em contrapartida fossem recompensados financeiramente: “Nós sabemos que não é uma solução legal, mas é uma forma de aliviar o problema”, explica Nuno Amaral. Ainda assim, diz que até ao momento não há resposta do Governo Regional, nem da nova empresa Vale do Ave Açores: “Não se consegue obter respostas porque ninguém consegue assumir isso. Em causa estão vários trabalhadores que estão a ver a sua vida a andar para trás e continuam sem saber o que vai acontecer”, lamenta o dirigente.