Sindicato alerta para aumento de pressão no local de trabalho nos Açores em 2021
28 de dez. de 2021, 18:00
— Lusa/AO Online
“Do ponto de
vista sindical, nunca fiz tantas cartas de despedimento de trabalhadores
como fiz durante este ano de 2021 e esta situação deveu-se ao facto de
as pessoas já não aguentarem mais a pressão a que estavam sujeitas”,
afirmou o dirigente sindical Vítor Silva, numa conferência de imprensa
conjunta da USAH e do Sindicato das Indústrias Transformadoras,
Alimentação, Comércio e Escritórios, Hotelaria e Turismo (SITACEHT) dos
Açores, em Angra do Heroísmo.Segundo
o coordenador da USAH, apesar da pandemia de covid-19, em alguns
setores, como a indústria conserveira ou o comércio, houve um “aumento
da atividade”, que não se traduziu num reforço de trabalhadores, nem em
aumentos salariais.“Este
aumento de trabalho não foi compensado com a entrada de mais pessoas,
foi suportado com aquelas que já existiam. As pessoas tiveram de
trabalhar ainda mais. Isto faz com que a conciliação entre a vida
profissional e a vida pessoal seja praticamente impossível”, alertou.O
aumento da carga laboral, associado à pressão e ao assédio moral, levou
a que muitas pessoas tenham sentido necessidade de “escolher entre o
seu trabalho e a sua saúde mental”, segundo Vítor Silva.“É
uma situação que nos preocupa e muito. As pessoas já estão fragilizadas
e há inclusivamente pessoas que têm medo de ir trabalhar. Vão com
receio do que vão ouvir durante o dia de trabalho”, sublinhou.Numa
conferência de imprensa de balanço de 2021, o dirigente sindical disse
que os problemas laborais nos Açores se acentuaram, alertando para os
baixos salários, para a precariedade, para a discriminação entre homens e
mulheres, a falta de formação e a escassez de condições de saúde e
segurança.“O
ano de 2021 não foi nada benéfico para os trabalhadores açorianos, não
só pela situação pandémica que atravessamos, mas porque os problemas
estruturais no mercado do trabalho infelizmente se mantiveram e nalguns
casos até se agravaram”, frisou.Tendo
em conta a “situação económica frágil” da região e os dados do primeiro
semestre deste ano, a USAH e o SITACEHT, afetos à CGTP, estimam que
haja um aumento do desemprego em 2022.“Os
dados recolhidos por estas estruturas sindicais e a conjuntura social
que vivemos fazem-nos temer um aumento do desemprego nos Açores. O
problema será geral, mas no nosso entender atingirá, em primeiro lugar,
os jovens, mesmo os altamente qualificados, mas também as trabalhadoras e
trabalhadores acima dos 45 anos, que são discriminados no acesso ao
emprego”, salientou.Vítor
Silva alertou ainda para a redução dos contratos coletivos de trabalho
na região, desde 2003, apelando à intervenção do Governo Regional.“O
Governo [Regional] pode intervir. Bastava que, na atribuição de
subsídios e de fundos, um dos critérios fosse que as empresas tivessem
contratação coletiva, que cumprissem com as suas obrigações sociais e os
vencimentos em dia”, defendeu.Para
o dirigente sindical, o combate à pobreza e à exclusão social nos
Açores depende do aumento dos salários e da melhoria de vínculos
laborais.“O
número de pessoas que necessitam efetivamente de prestações sociais é o
espelho da injustiça social que se aprofunda no nosso arquipélago,
sendo ainda mais preocupante o facto de muitos destes beneficiários
serem trabalhadores, empregados a tempo inteiro, cuja remuneração é
insuficiente para garantir a sua sobrevivência e dignidade”, reforçou.