Setor da Justiça espera que novo ano judicial não seja mais um ano igual aos outros
10 de jan. de 2025, 18:36
— Lusa/AO Online
A cerimónia
oficial de abertura do ano judicial tem início às 15h00 (Menos uma nos Açores) de segunda-feira
no Supremo Tribunal de Justiça, no Terreiro do Paço, em Lisboa, mas
antes disso deverá ser visível o protesto dos funcionários judiciais,
que não querem deixar de aproveitar o momento solene para mostrar à
ministra da Justiça, presente na cerimónia, e a todo o setor que não
gostaram da proposta de revisão de carreira que o Governo lhes fez
chegar.Um protesto visível, mas não
audível, uma vez que o Sindicato dos Funcionários Judiciais (SFJ)
convocou uma vigília silenciosa, identificada pelas t-shirts negras que
os dirigentes nacionais do sindicato e outros profissionais que
participem no protesto pretendem usar, com a habitual frase de luta
“Justiça para quem nela trabalha”.O
Sindicato dos Oficiais de Justiça (SOJ) deverá associar-se ao protesto,
disse à Lusa o seu presidente, Carlos Almeida, que sublinhou que este
protesto é possível também porque este sindicato mantém greves em curso.
“Corta-se a fita a um Novo Ano Judicial,
mas os problemas já são velhinhos e apontamos que o desânimo destes
profissionais centra-se, neste momento, e em primeiro lugar, na proposta
inaceitável que foi apresentada pelo Ministério da Justiça no passado
dia 20 de dezembro onde, em linhas gerais, despromove os oficiais de
justiça, partindo a carreira em duas”, afirmou o SFJ numa nota à Lusa
sobre a abertura do novo ano judicial.Para
o SFJ, “de ano para ano, os problemas da justiça agudizam-se, e apesar
de se falar muito no tema, na prática está quase tudo na mesma”,
insistindo sobre o documento enviado aos sindicatos pelo Governo que “a
proposta em cima da mesa, é mesmo ‘gozar com quem trabalha’”
contemplando “aumentos, em alguns casos, de 30 ou 40 euros”.Pelo
SOJ, Carlos Almeida diz que o sindicato vai para a reunião negocial de
16 de janeiro “de boa-fé”, mas "não com uma fé cega”, admitindo “reserva
e ceticismo” depois de conhecer a proposta do ministério tutelado por
Rita Alarcão Júdice.E apesar dos apelos do
Governo para uma “pacificação do setor” e para que o processo negocial
de revisão do Estatuto dos Funcionários Judiciais possa decorrer em paz
social, o SOJ irá para esta primeira reunião em greve. “Só aí vamos ver
se o processo negocial é sério e vamos ver se dá resposta aos problemas
da carreira”, diz Carlos Almeida.O SFJ diz
que a reunião “pode ser a oportunidade” de a ministra da Justiça “se
redimir” e aceitar a contraproposta que está a ser preparada em conjunto
pelos dois sindicatos, “já que o que foi apresentado foi a negação do
sempre prometido”.Um Estatuto que
“finalmente dignifique a carreira dos oficiais de justiça e acalme as
agitadas águas da justiça” é uma reivindicação do Sindicato dos
Magistrados do Ministério Público (SMMP), mas também a Associação
Sindical dos Juízes Portugueses (ASJP) apela para a dignificação da
carreira e para o reforço de quadros de funcionários.O
SMMP espera um acordo que evite a “repetição em 2025 da série de greves
(legítimas e justificadas) que ocorreram em 2024, as quais provocaram
atrasos sucessivos”; que consagre “uma remuneração condigna, à altura
das exigências da função” e “uma carreira atrativa”, que tenha em conta a
especificidade das funções desempenhadas pelos oficiais de justiça nos
serviços do Ministério Público, as quais requerem uma qualificação
distinta daqueles que exercem funções nas secretarias judiciais”.Procuradores
e juízes têm desejos comuns para 2025 ao nível de valorização das
respetivas carreiras, das condições de trabalho e de investimentos em
edificado e tecnologia, com a ASJP a apelar para investimento em várias
áreas que permita ultrapassar “o desempenho político-governativo de mera
gestão corrente”.No entanto, o grande
desafio de 2025, do ponto de vista da associação de juízes, é a resposta
que o sistema será capaz de dar num “ano decisivo para vários casos
mediáticos”, como os processos Operação Marquês, BES/GES e Operação
Influencer, entre outros, admitindo não existir “fórmulas mágicas”, mas
afirmando ser “possível ponderar a adoção de medidas de gestão
processual e a introdução de pontuais alterações legislativas, para
conferir celeridade e eficácia ao sistema”.ASJP
e SMMP convergem também na expectativa de que 2025 seja o ano da
Justiça como prioridade política e de reformas estruturais.A
bastonária da Ordem dos Advogados, Fernanda de Almeida Pinheiro, que
discursará na cerimónia oficial, disse à Lusa que espera que o ano
judicial de 2025 resolva a questão do sistema de previdência dos
advogados e solicitadores; consagre uma nova tabela de honorários para
advogados oficiosos, assim como o compromisso de esta ser revista e
atualizada; e inicie “a revisão da revisão” do Estatuto da Ordem dos
Advogados depois de um processo que “foi catastrófico”, sobretudo para
os estagiários e o seu acesso à profissão pelas condições de remuneração
impostas nos estágios, considerou.Para
além da bastonária dos advogados, discursam na cerimónia de abertura do
ano judicial o Procurador-Geral da República, Amadeu Guerra; a ministra
da Justiça, Rita Alarcão Júdice; o Presidente do Supremo Tribunal de
Justiça, juiz conselheiro João Cura Mariano; o presidente da Assembleia
da República, José Pedro Aguiar-Branco; e o Presidente da República,
Marcelo Rebelo de Sousa.