Sensibilidade sensorial extrema é mais comum em pais de crianças com autismo
8 de fev. de 2025, 11:00
— Lusa/AO Online
O
estudo levado a cabo por uma psicóloga, uma psiquiatra e uma
pedopsiquiatra – publicado na revista científica Research in
Developmental Disabilities – comparou pais de crianças com
perturbações do processamento sensorial e pais de crianças que
apresentam um desenvolvimento considerado típico, num total de mais de
uma centena de pessoas.“O que está na
hipótese deste artigo é que a montante de tudo está o processamento
sensorial e perturbações do processamento sensorial, a forma como as
pessoas reagem a estímulos do dia a dia (…) Os pais de crianças com
perturbação do espetro do autismo ou com perturbação do processamento
sensorial tinham, em média, padrões sensoriais mais intensos”, explicou a
investigadora Irene Carvalho.Sublinhando
que, com este artigo, “de forma alguma se pretende que os pais se sintam
culpados ou responsáveis”, a também professora da FMUP salientou a
importância de serem criados programas que ajudem os pais e cuidadores a
lidar com as eventuais dificuldades de processamento sensorial,
minimizando o impacto na família e nas crianças.“A
nossa insistência é justamente na tónica do apoio às famílias e não em
fazer as famílias sentirem-se mal e responsáveis”, frisou Irene
Carvalho, em declarações à agência Lusa.Em
causa estão, por exemplo, padrões como a tendência a evitar estímulos
sensoriais ou esquivar-se ao contacto durante as interações sociais.Podem ser consideradas atipias do processamento sensorial as reações aos sons, aos cheiros, a estímulos.Um
ruído que é considerado habitual e perfeitamente intolerável para a
maioria das pessoas pode ser absolutamente intolerável para uma pessoa
que tem uma perturbação de processamento sensorial.Em
alguns casos estudados estes padrões sensoriais intensos estavam
relacionados com a chamada alexitimia, a dificuldade em identificar e
expressar emoções.Para chegar a estas
conclusões foi aplicado aos pais um questionário que analisava seis
componentes sensoriais: o paladar/olfato, a audição, a visão, o tato, o
movimento e a atividade.Do mesmo modo, foram também avaliados fatores como a atenção e as competências sociais.Ao
realizarem esta bateria de testes as investigadoras da FMUP detetaram
diferenças na sensibilidade e resposta a estímulos sensoriais diversos.Estas
características sensoriais, “longe de serem vistas como falhas”, podem
representar desafios únicos que afetam a forma como pais e filhos se
relacionam.“Nas interações, os pais
transmitem, ainda que de forma inconsciente, mas que pode ser
sistemática, que aquilo é um estímulo perigoso, podendo passar essa
sensação de ameaça aos filhos”, explicou Irene Carvalho.Neste
contexto, acrescentou a docente, a principal sugestão que nasce com
este estudo “inédito” é a importância de fomentar estratégias de apoio
que promovam interações familiares positivas, indo para além da questão
genética.“Intervenções e formações que
ajudem os pais a identificar e verbalizar sentimentos e emoções podem
ser uma ferramenta valiosa para estas famílias, melhorando a qualidade
da relação e o bem-estar de todos os envolvidos”, lê-se nas conclusões. Além
de Irene Carvalho (FMUP), esta investigação contou com a colaboração de
Goretti Dias (Hospital de Santo António) e de Ana Sofia Machado (FMUP e
ULS São João).