Senhor Jorge": o fado do sacristão e a pop dos jovens
Meia de Rock
3 de mai. de 2021, 10:58
— João Cordeiro
Os duetos e as colaborações entre artistas são tão antigas como a
indústria da música, e têm, quase sempre, o objetivo de aumentar a
audiência dos artistas e consequentemente as vendas.
Mais recentemente – na verdade já foi há quase 10 anos – uma operadora
de telecomunicações celebrizou em Portugal os duetos improváveis,
aliando, numa publicidade bem-sucedida, o fado ao heavy metal, a música
pimba ao rock, ou o hip-hop à música para crianças,
em torno de uma interpretação de um tema dos Beatles: “All Together Now”
(pronto, agora já todos perceberam que era a publicidade da Optimus).
Nestes duetos improváveis, destacava-se sempre o carácter insólito e –
apesar de musicalmente muito interessante – o resultado era sempre
hilariante.
O álbum que trago aqui hoje é insólito porque junta mundos muito
diferentes, mas o resultado não tem piada nenhuma. Quanto muito, é capaz
de sacar uma lágrima.
Mas vamos ao princípio. Jorge Novo mora em Viseu. Tem 61 anos, é
sacristão e sempre gostou de cantar fados tradicionais. O Rui Sousa tem
uma banda que se chama Dada Garbeck, o João Pedro Silva toca nos The
Lemon Lovers e o Gonçalo Alegre pertence aos Galo Cant’às
Duas. Têm todos idade para ser filhos do Senhor Jorge Novo.
Um dia – mais concretamente, uma noite – dá-se o encontro que despoletou
este projeto improvável: Rui Sousa está em Viseu, para tocar no órgão
de tubos da Igreja da Misericórdia, no âmbito de uma residência
artística. É noite de estreia. Jorge Novo também está
lá. Para assistir, presumo. Mas corre a informação que o sacristão canta
muito bem o fado, e Rui Sousa pede-lhe que cante.
Podia ter sido mais um momento como tantos outros, com mais ou com menos
sinceridade: “Canta muito bem, sim senhor”, e ficava tudo por aí.
Mas houve qualquer coisa que despertou o interesse de Rui Sousa naquela voz. Ou naquela pessoa.
Depois, Rui Sousa chamou reforços da sua idade e passaram uma semana com
o senhor Jorge Novo a cantar fados tradicionais com teclados, beats,
guitarra elétrica, contrabaixo e sintetizadores em vez de guitarras
portuguesas.
Assim nasceram os Senhor Jorge. Tudo isto ainda em 2018.
No ano seguinte surgiram os primeiros temas originais, e agora, em 2021,
o primeiro álbum. Um EP com cinco canções poderosas sobre amor,
ternura, perda, tristeza e amargura.
As músicas são de uma beleza desconcertante, os poemas atuais e
profundos, mas é a voz sincera, por vezes descuidada na pronúncia das
palavras e na técnica, que prende a atenção desde o primeiro momento da
primeira canção.
Cada palavra de Jorge Novo é verdadeira e emotiva.
Será que o Senhor Jorge e os jovens que o acompanham já conhecem os
Açores? Vá lá, quando os teatros voltarem a abrir, alguém que traga cá o
Senhor Jorge. O concerto até pode ser numa Igreja. Ele vai sentir-se em
casa.