Semestre português termina sem recuperação económica no terreno
Presidência UE
30 de jun. de 2021, 08:46
— Lusa/AO Online
“Era tempo de
agir a agimos”, afirmou na semana passada o primeiro-ministro, António
Costa, ao fazer, perante os homólogos, um balanço desta quarta
presidência portuguesa da UE.A
meta de ter os planos nacionais aprovados até 30 de junho, abrindo
caminho à libertação da primeira ‘tranche’ do Fundo de Recuperação e
Resiliência, foi anunciada logo em dezembro pelo ministro dos Negócios
Estrangeiros, Augusto Santos Silva, e renovada em abril, quando António
Costa apontou para a aprovação de um primeiro pacote de Planos de
Recuperação e Resiliência (PRR) na reunião de ministros das Finanças
(Ecofin) de 13 de junho. Portugal
foi o primeiro país a apresentar formalmente o seu plano de
investimentos à Comissão Europeia, mas outros Estados-membros não foram
tão rápidos: a 30 de abril, data limite indicativa para a entrega,
apenas oito dos 27 o tinham feito e, atualmente, dois meses passados,
ainda há três países que não o fizeram. A
Comissão aprovou entretanto 12 planos, os mesmos que deverão ser
submetidos ao Ecofin marcado para 13 de julho, quase um ano depois da
histórica cimeira em que os líderes europeus aceitaram criar um fundo de
750 mil milhões a financiar, pela primeira vez na história da UE, com
dívida emitida em nome dos 27.Foi
neste outro aspeto que Portugal fez a diferença, nunca abrandando a
pressão sobre os restantes Estados-membros para a ratificação da decisão
dos chamados recursos próprios.Esse
processo ficou concluído a 28 de maio, permitindo que, a 15 de junho, a
Comissão lançasse a primeira e maior emissão de obrigações
institucionais de sempre na UE, angariando 20 mil milhões de euros.Ainda
na vertente económica, e tendo estipulado também como objetivo aprovar
todos os regulamentos para a entrada em vigor do quadro financeiro
plurianual, o orçamento da UE para 2021-2027, a presidência negociou e
conseguiu que fosse aprovada praticamente toda a legislação, incluindo a
reforma da Política Agrícola Comum (PAC), acordada nos últimos dias.Portugal
definiu como terceiro grande objetivo chegar ao final de junho com o
processo de vacinação contra a covid-19 “bem avançado” em todos os
Estados-membros, um “elemento essencial para a recuperação económica e
social”.Depois
de significativos atrasos no primeiro trimestre, durante o qual apenas
4,1% da população adulta da UE foi imunizada, o reforço da entrega de
vacinas permitiu avanços, mas as desigualdades entre Estados são
importantes e o surgimento da variante Delta complicou e fez retroceder o
desconfinamento em várias regiões e países.Uma vitória, neste domínio, foi o certificado digital covid-19, adotado “em tempo recorde” para facilitar a circulação na UE.A
presidência portuguesa definiu como quarto grande objetivo “um impulso
definitivo" à realização do Pilar Europeu dos Direitos Sociais,
promovendo, no Porto, uma Cimeira Social, que reuniu decisores,
parceiros sociais e sociedade civil.Com
24 dos 27 líderes europeus presentes, um recorde em tempos de pandemia,
a Cimeira terminou com uma declaração, o “Compromisso do Porto”, que
estabelece um modelo de governação com objetivos quantificados em
matéria de emprego, formação e combate à pobreza.A
Cimeira ficou contudo marcada pela questão do levantamento das patentes
das vacinas, proposta dois dias antes pelo Presidente dos Estados
Unidos, Joe Biden.Se
as primeiras reações europeias pareciam favoráveis, o debate dos 27 ao
jantar, que se prolongou por quatro horas, terminou com uma maioria a
pronunciar-se contra.No
plano global, a presidência portuguesa deu prioridade à Cimeira
UE-Índia, que acabou por realizar-se com o primeiro-ministro indiano,
Narendra Modi, à distância, dada a grave situação pandémica no seu país,
e terminar com o relançamento das negociações comerciais, suspensas
desde 2013.Mas
a vertente global do semestre fica sobretudo marcada pelo reencontro da
Europa com os Estados Unidos, que teve como momento alto a Cimeira de
14 de junho, em Bruxelas, uma “reconciliação” transatlântica propiciada
pela eleição de Biden. Além
de grandes objetivos, uma presidência tem vários dossiers que transitam
da anterior, assuntos que se arrastam e desenvolvimentos inesperados.Neste
semestre foi aprovada a Lei do Clima, - que transpõe para lei a
neutralidade carbónica até 2050 -, a diretiva sobre transparência das
multinacionais - doravante obrigadas a divulgar em que países obtêm
lucros e pagam impostos - e a Garantia para a Infância - que vai
assegurar a 18 milhões de crianças em risco ou em situação de pobreza o
acesso a serviços essenciais.Alguns
impasses importantes foram desbloqueados, como o que atrasava há um ano
o arranque da Conferência sobre o Futuro da Europa, mas outros, como o
novo Pacto das Migrações, conheceram apenas desenvolvimentos técnicos,
insuficientes para perspetivar um acordo em breve, como já admitiu a
Eslovénia, que assume a presidência na quinta-feira.Outros
simplesmente não conheceram desenvolvimentos visíveis, como a entrada
em vigor do acordo comercial UE-Mercosul ou o lançamento de negociações
de adesão com a Albânia e a Macedónia do Norte.Por
outro lado, e apesar da insistência de Portugal ao longo dos seis meses
na importância da defesa do Estado de direito na UE, que passou pelo
relançamento dos procedimentos contra Hungria e Polónia, a presidência
termina com uma polémica envolvendo direitos fundamentais.O
“dever de neutralidade” afirmado pela secretária de Estado dos Assuntos
Europeus em relação a uma carta de 13 líderes da UE defendendo os
valores fundamentais europeus, publicada depois da aprovação na Hungria
de uma lei proibindo “a promoção” da homossexualidade junto de menores
de 18 anos, valeu fortes críticas internas ao governo.Inicialmente
planeada para diferentes cenários de evolução da pandemia, as
sucessivas vagas determinaram que a regra fosse muitas vezes a reunião
por videoconferência ou híbrida, o que afetou a dinâmica de algumas
negociações, mas também, e sobretudo, a visibilidade da presidência, com
uma cobertura mediática forçosamente dificultada.