Sem apoios públicos, privados não avançam para a energia renovável marinha
25 de out. de 2017, 14:40
— Lusa/AO online
As conclusões foram apresentadas na
conferência "O Valor dos Oceanos", em Lisboa, que sistematizou o
trabalho feito entre 2013 e 2017 pela Fundação Calouste Gulbenkian
denominado "Iniciativa Gulbenkian Oceanos". "Ainda que os custos
de capital tendam a diminuir ao longo do tempo, os resultados deste
trabalho sugerem que a ERM (incluindo energia eólica 'offshore',
'nearshore' e energia das ondas) não será competitiva mesmo no longo
prazo", lê-se na documentação distribuída. Quanto à energia
eólica 'offshore' (no mar), do ponto de vista social, é "viável antes de
2050" se os impactos paisagísticos não forem muito altos e/ou em locais
de densidade energética mais elevada (com cerca de 100 quilómetros
quadrados). "No primeiro caso, a instalação da tecnologia poderia
ocorrer a partir de 2027, enquanto no segundo após 2037", lê-se nas
conclusões do trabalho, no qual se lê que os "resultados do modelo
[económico] sugerem que uma Feed-in-Tariffs [tarifas bonificadas] de 85
euros por megawatt para a energia eólica 'offshore' poderia ser
suficiente para a tornar viável entre 2020 e 2030". Já a energia
eólica 'nearshore' (turbinas fixas no solo) "não é viável do ponto de
vista social, pelo que não deverá ser apoiada". Em causa está a
elevada profundidade do oceano junto à costa, o que poderá levar a
impactos paisagísticos "consideráveis" com a instalação de turbinas
perto da costa. Sobre a energia das ondas, os especialistas
garantem que a instalação antes de 2050 só seria viável no caso de
ocorrerem avanços tecnológicos significativos em termos de "eficiência
(aumento do fator de capacidade)", "robustez (dispositivos com vida útil
mais longa)" e "redução de custos (custos de capital inferiores ao
esperado)". Neste trabalho foram identificados 10 pontos com
características naturais para instalação de tecnologia para energia
eólica 'offshore', mas considera que "toda essa área é irrealista",
nomeadamente por "conflitos de interesse" nomeadamente com a pesca e com
o turismo. "Em alternativa, em locais selecionados com melhores
recursos energéticos, a instalação de energia eólica 'offshore' poderia
acontecer até 2037". Nesta análise geográfica, no caso da energia
das ondas, concluiu-se que nenhum dos locais selecionados "parece ser
viável devido aos elevados custos de capital, dado que se trata de uma
indústria nascente". Quanto à energia eólica 'nearshore', foi
identificado um local entre Aveiro e o Porto, com os especialistas a
notarem que "os impactos paisagísticos podem ser determinantes". O
trabalho recorda haver três projetos de demonstração de ERM: dois de
tecnologia das ondas WaveRoller, em Peniche, e o Centro das Ondas, na
Ilha do Pico, nos Açores,
existindo ainda um projeto de energia eólica offshore, o Windfloat na
Aguçadoura, que se espera ficar operacional em 2018, com uma capacidade
instalada de 25 megawatts. O estudo refere ainda a "necessidade
de promover uma visão mais integrada e de longo prazo que garanta
estabilidade à indústria das ERM", referindo que apoios dados "não têm
sido consistentes ao longo do tempo, o que reduz a capacidade de
atração" para o país. "Uma visão de longo prazo para a indústria
ERM reduziria a incerteza regulatória, contribuindo para o cumprimento
dos objetivos estabelecidos na Estratégia Nacional para o Mar e Plano de
Ação para as Energias Renováveis". Nos comentários finais é
argumentada a necessidade obrigatória de ter em consideração a "dimensão
socioeconómica associada à escolha do local de investimento" e a
conclusão de que as energias 'offshore' e 'nearshore' "têm muito
provavelmente impactos paisagísticos consideráveis até cinco quilómetros
da costa", pelo que "não deverão ser incluídas nos instrumentos de
ordenamento do território".