Secretário da Agricultura dos Açores pede "reflexão com profundidade" sobre alterações climáticas
20 de set. de 2019, 13:45
— Lusa/AO Online
“Sim é verdade, a agricultura e a pecuária
contribuem para as alterações climáticas. Mas serão as únicas? Serão as
que mais contribuem? Está na moda ‘ir na onda’, apontar o dedo, arranjar
culpados e a agropecuária infelizmente é um alvo fácil. Muitos dos que
apontam o dedo são os mesmos que apreciam uma boa refeição acompanhada
de um bom vinho, um bom queijo e uma boa carne”, escreve João Ponte num
artigo de opinião publicado hoje na imprensa regional.Na
terça-feira, o reitor da Universidade de Coimbra, Amílcar Falcão,
anunciou que a academia vai eliminar o consumo de carne de vaca nas
cantinas universitárias a partir de janeiro de 2020, por razões
ambientais.A carne de vaca será
substituída "por outros nutrientes que irão ser estudados”, sendo esta
“uma forma de diminuir aquela que é a fonte de maior produção de dióxido
de carbono que existe ao nível da produção de carne animal".No
artigo, o titular da pasta da Agricultura nos Açores refere que a
decisão do reitor da "mais antiga universidade portuguesa deixou
perplexos muitos cidadãos, uns porque dependem desta atividade económica
para sustentar as suas famílias, outros porque encaram esta decisão
unilateral como um ataque à liberdade individual, às suas ideologias, às
suas crenças e aos seus costumes"."Independentemente
do ceticismo relativamente aos verdadeiros propósitos desta posição,
aparentemente com alguma demonstração de desconhecimento relativamente
ao verdadeiro contributo da agropecuária para as alterações climáticas, o
que é certo é que estas declarações são mais um alerta para a
necessidade de se efetuar uma reflexão com toda a profundidade e cuidado
sobre esta temática", escreve o governante açoriano.João
Ponte sustenta que, "por mais que incomode", a decisão do reitor da
Universidade de Coimbra é "uma verdadeira chamada de atenção para se
agir" em cada setor e atividade, no dia-a-dia. para "melhorar a saúde do
planeta". "Será mesmo a agropecuária a
desgraça da nossa e das futuras gerações? Valerá também a pena falar do
contributo dos transportes, do setor energético, do comércio, do turismo
ou da indústria?", pergunta João Ponte.No
caso dos Açores, destaca a forma de produzir "ambientalmente mais
sustentável", o que permite "uma produção de leite e de carne
diferenciada e mais saudável", levando ainda a que "a pegada ambiental
para produzir um litro de leite ou um quilo de carne nos Açores seja
muito inferior a outras regiões ou outros países". João
Ponte lembra que os Açores produzem 35% de todo o leite do país, num
arquipélago em que "um terço do território é floresta e as pastagens
ocupam mais de 90% da superfície agrícola útil da Região". Destacando
os investimentos e os programas lançados nos Açores tendo por base as
preocupações ambientais, o secretário regional da Agricultura disse que o
arquipélago "está empenhado na adoção de políticas regionais de combate
às alterações climáticas".João Ponte
afirma ainda que "as universidades, em particular a de Coimbra, que
muito têm contribuído para o desenvolvimento do país, poderão ajudar de
forma decisiva com o seu conhecimento e auxiliar os pequenos e grandes
agricultores na transição para uma agricultura ambientalmente mais
ecológica". Na quinta-feira, o presidente
da Federação Agrícola dos Açores, Jorge Rita, considerou, em declarações
aos jornalistas, ser "totalmente absurdo" a anunciada eliminação do
consumo de carne de vaca nas cantinas universitárias de Coimbra,
sustentando que os agricultores são os primeiros defensores do ambiente e
pedindo que o combate às alterações climáticas não seja feito de "forma
radical".