Seca na ilha de São Miguel leva agricultores a ponderar redução de explorações
30 de jul. de 2018, 08:57
— Lusa/AO Online
Raul
Almeida, de 49 anos, tem, juntamente com o irmão, Carlos, de 48, uma
exploração agrícola com cerca de 140 vacas leiteiras e mais de 120
novilhos, e uma empresa de prestação de serviços de máquinas agrícolas.Quando
semearam o milho, a 15 de abril, a terra já estava “meia seca”. Desde
então, “nunca mais choveu uma chuva que dê para molhar” e a orientação
do vento, que chegou a atingir rajadas de 60 km/h, tem exacerbado os
efeitos da devastação causada pela falta de água nos solos, observou
Raul Almeida.As
sementes eram boas, já que 40 dias depois de terem sido plantadas, à
primeira chuva que caiu, o pé nasceu logo. Esses pés continuam nos
campos, mas a grande maioria “não ultrapassa os cerca de dez
centímetros” de altura, muito longe dos habituais dois metros.A
última chuva considerável de que se lembra caiu em março. Desde então,
tudo o que cai é insuficiente e “o tempo de norte, seca”.Raul
trabalha nos campos desde os 17 anos e garantiu que nunca tinha visto
um caso como o deste ano, em que “não se aproveita nada” e a situação “é
uma catástrofe”.Os
terrenos onde os irmãos Almeida semeiam o milho que serve de alimento
aos animais durante os meses de inverno ficam nos Fenais da Luz, na
costa norte da ilha, a mais afetada pela seca.As
condições da terra na época das sementeiras eram tais, que houve, mesmo
ali ao lado, quem não chegasse a plantar o milho, considerando que não
valia a pena a despesa.Os
irmãos semearam na esperança de que as condições adversas mudassem.
Raul lembrou que, em 2001, os campos encontravam-se em estado semelhante
ao deste ano e, ainda assim, decidiram semear o milho a 01 de abril.
Nessa mesma noite, caiu “uma chuva que parecia um dilúvio” e esse acabou
por ser um ano bom.“O
milho é uma cultura que faz muita despesa”, garantiu Raul, ao estimar
que, sem contar com a renda da terra, a plantação de um hectare de milho
“nunca fica por menos de mil euros”.A
plantação do lavrador tem 25 hectares, dos quais disse acreditar que se
pode salvar, “com muita sorte, juntando tudo, talvez um hectare”.A
situação é generalizada. Na costa sul, onde os problemas são menos
evidentes, as culturas de milho estão razoáveis, já que o sol quente
levou o milho a espigar mais cedo, antes de atingir os dois metros de
altura, como habitualmente, o que levou Raul Almeida a afirmar que, este
ano, as produções vão ser mais fracas, “nenhuma vai atingir as 60
toneladas por hectare e algumas não vão produzir nada”, como é o caso da
sua.A
proximidade do mar e a exposição ao vento são fatores que contribuíram
muito para as condições em que se encontra a produção dos irmãos
Almeida, mas também a própria topografia dos terrenos, inclinados e
altos, deixou as culturas mais vulneráveis.Nos
terrenos à volta, o cenário é semelhante, com a exceção da exploração
de Norton Miranda, que, por ser mais baixa, é mais abrigada do vento e,
por isso, é o terreno com melhor produção nas redondezas. No entanto,
também esta produção fica muito aquém da de anos anteriores.O
presidente da Federação Agrícola dos Açores, Jorge Rita, reconheceu que
“a situação é aflitiva, quase dramática”, e que “basta olhar a olho nu
para alguns cerrados, para se perceber que há muitas zonas em que a
produção de milho, este ano, vai ser zero”.Contudo,
disse que “é preciso esperar até setembro ou outubro [altura em que é
feita a colheita do milho] para se perceber ao certo a dimensão do
problema”, até porque há produções “que podem parecer boas, mas depois o
grão não tem qualidade”.Jorge
Rita disse já ter alertado para a necessidade de se criarem mecanismos
para enfrentar as secas, como a criação de estruturas de reserva de
água, uma vez que a escassez de água afeta gravemente a produção
agrícola e pode vir a afetar o abastecimento de água às populações.Arnaldo
Rocha é um praticante de parapente que há mais de 20 anos costuma usar
os pastos dos irmãos Almeida para a descolagem ou aterragem, e que está
habituado a ver a ilha de cima. Para ele, a situação de seca na costa
norte da ilha de São Miguel, particularmente entre a zona junto à reta
dos Fenais da Luz e o Pilar da Bretanha, é desoladora.Ver
aquelas terras, que costumavam ser verdes, completamente secas,
entristece, descreveu. Os lavradores trabalham "dia e noite, para depois
terem um resultado destes".De
acordo com o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), nos
últimos anos, em São Miguel, tem chovido menos do que a média, uma
situação que tenderá a agravar-se com os efeitos das alterações
climáticas.Para
os irmãos Almeida, já não há ponto de retorno: “A partir daqui, podia
chover todos os dias, que já não muda nada… Estes campos estão
completamente acabados”.Se a situação se mantiver, Raul gostaria de "manter a exploração", mas, provavelmente, terá de reduzir a quantidade de animais. “Se
não conseguirmos adquirir ou importar milho, ou qualquer coisa assim,
não temos comida suficiente para manter o gado até à próxima campanha do
milho. Vamos ter que abater animais”. E muitos, garantiu.Este
inverno não será um problema, pois ainda têm alimentação da produção do
ano anterior, mas, para o próximo ano, estão a considerar a
possibilidade de reduzir a exploração.Entre novilhos e vacas leiteiras, os irmãos Almeida têm de alimentar mais de 260 animais.