"Se o preço pela vitória é a morte" de toda a população mais vale largar Bakhmut
Ucrânia/1 ano
22 de fev. de 2023, 07:17
— André Campos Ferrão/Lusa/AO Online
Vasyl, 39 anos, e Andryi, 30. Cinco
quilómetros separavam estes dois militares na linha da frente na região
de Donetsk. Hoje estão a menos de 50 centímetros um do outro, em camas
separadas, mas no mesmo quarto de um hospital destruído há anos não pela
artilharia, mas pela corrupção.Os antigos
líderes, favoráveis à Rússia, desta vila cujo nome por questões de
segurança não pode ser revelado, desviaram financiamento para o hospital
e estavam preparados para entregar a vila a Moscovo quando a invasão
começou, mas acabaram por ser destituídos, assim explica um habitante
que se encaminha para a unidade hospitalar que, entretanto, foi
reequipada e reconvertida para ser a segunda linha na assistência médica
a quem está a combater na primeira.O
hospital está completamente cheio. O rácio é de 1.000 militares nas
instalações por cada dez habitantes. A esta unidade chegam apenas os
militares com ferimentos ligeiros e há apenas um objetivo: recuperá-los
num ápice para que consigam voltar para os pelotões.É nessa situação que estão Vasyl e Andryi, vítimas dos estilhaços resultantes de bombardeamentos.“Estive
até agora a lutar em Soledar e Bakhmut, mas já cá estou há 11 dias”,
explica à Lusa Vasyl. Bibliotecário de profissão, diz estar “arrependido
por estar a participar na guerra”, mas agora sabe que tem “de voltar”. “Não tenho para onde ir, não tenho escolha, tenho de regressar”, completa.Já
sobre a situação em Bakhmut, inacessível por causa de uma batalha que
dura há semanas entre as Forças Armadas da Ucrânia e os militares do
Kremlin apoiados pelos mercenários do grupo Wagner, Vasyl diz que “é
muito difícil” e que “é impossível falar sem brincar”, já que, para este
militar, o humor é a única maneira de conseguir conviver com a
brutalidade da guerra.Mas sobre o desfecho
da batalha, o tom já é sério: “Se o preço pela vitória é a morte de
toda a população, então mais vale deixá-la [à cidade]”.O
caminho de Andryi foi outro. Natural de Suma, uma cidade que foi
ocupada, e, entretanto, libertada, decidiu fazer a recruta e continuou a
formação militar para se tornar um 'sniper'.“Era
essa a função que vinha para cá desempenhar, mas o anterior 'sniper'
morreu, também por causa de estilhaços, e a arma ficou danificada. Por
isso fui para a infantaria servir o meu país”, explicou.Dois
meses de formação específica e Andryi foi para o terreno, mas apenas
dez dias depois de começar a combater, foi apanhado por uma explosão e
ficou ferido.Mas assim que voltar ao
terreno e quando que chegar a nova arma, Andryi vai regressar como
'sniper'. Vasyl como soldado de infantaria, e, em princípio, desta vez
integrarão o mesmo pelotão, pelo que a amizade que desenvolveram nestas
camas de hospital poderá servir como 'âncora' para a tormenta do
conflito.É hora do almoço, uma grande
panela de ferro com sopa é transportada por dois militares, um deles
leva também dois sacos de pão, até uma cantina improvisada dentro de um
gabinete. A equipa médica e militares que supervisionam as instalações
aproveitam para descansar um pouco. Quase ninguém fala, ocasionalmente
uma pessoa levanta-se para ir buscar mais uma fatia de pão e pergunta se
“alguém quer”.A luz dentro desta unidade é
reduzida ao máximo, as janelas estão emparedadas e no exterior há sacos
de serapilheira cobertos de areia para proteger a estrutura de um
bombardeamento.Há camas no meio de uma
sala de espera, que também serve de secretaria do hospital. O segundo
piso e metade do terceiro estão completamente ocupados por militares.A
equipa médica militar veio quase toda de Kiev e está em permanência
nesta unidade, tal é o volume de militares que dá entrada neste serviço.
Só os que requerem intervenções cirúrgicas é que são diretamente
transportados para Kharkiv.Neste hospital
apenas se estabilizam militares feridos em combate, que aqui permanecem
até poderem regressar. Uma recuperação rápida é sinónimo de um reforço
na linha da frente, a braços com uma pressão acrescida que os militares
russos têm exercido sobre Bakhmut nas últimas semanas.Vasyl,
o médico, não o militar, chegou a este hospital há pouco mais de dois
meses e já está a coordenar tudo. “Como está longe o suficiente da linha
da frente, aqui podemos ter alguma calma”, elucida. No entanto, a Federação Russa está há semanas a tentar atingir a unidade hospitalar. E
já estiveram muito perto de o conseguir: “Há dez dias a artilharia caiu
muito perto, alguns civis morreram. Nós tentámos salvá-los, mas não
conseguimos”, relata.Impedir que a unidade
trate de soldados que mais rapidamente podem regressar ao combate
“traria vantagens à Rússia”, acrescenta o diretor daquele serviço.Por isso, a localização exata deste hospital não pôde ser revelada, a pedido das autoridades ucranianas.Vasyl
e Andryi deverão receber alta nos próximos dias. Serão novamente
contactados pelo comandante a quem obedeciam ou então serão chamados
para outra unidade. Tudo indica que da próxima vez vão estar lado a lado
na linha da frente, mas enquanto Andryi aponta como inevitável o
regresso à linha da frente, Vasyl esperava ser dispensado.Mas nada indica que tal aconteça.