"Se Israel quer paz, tem de se comportar como um Estado normal"
Médio Oriente
22 de set. de 2025, 17:34
— Henrique Botequilha /Lusa/AO Online
Em entrevista à agência
Lusa em Ramallah, na Cisjordânia, Varsen Aghabekian salientou que os
reconhecimentos já anunciados no domingo por Portugal, Reino Unido,
Canadá e Austrália, a que se juntará outro grupo liderado pela
França, “são muito importantes”, na medida em que “aproximam os
palestinianos da sua independência e liberdade e da materialização do
seu Estado”.Para a chefe da diplomacia de
Ramallah, os resultados “podem não ser visíveis amanhã”, embora reforcem
a posição jurídica do Estado da Palestina e enviam “uma mensagem muito
clara” ao lado israelita de que “a ilusão de pessoas ocupadas e
oprimidas para sempre não tem grande valor”.Segundo
a governante, os reconhecimentos diplomáticos, anunciados em vésperas
da sessão de alto nível da Assembleia-geral da ONU, devolve o conflito
israelo-palestiniano ao direito internacional, que “é muito claro sobre o
território ocupado, não sobre território contestado”, abrangendo as
demarcações de 1967 e que constituem o Estado da Palestina. “Como
tal, é uma mensagem de esperança para os palestinianos o facto de 82%
do mundo ter reconhecido o Estado da Palestina”, sublinhou, o que leva a
que uma vasta maioria considere que a ocupação do território, bem como
qualquer avanço que se siga, “é contrária ao direito internacional, nula
e sem efeito”. Varsen Aghabekian refere
que o reconhecimento de Portugal e dos outros países ocidentais “é
tardio”, embora ressalve que “mais vale tarde do que nunca” e que muitos
palestinianos “não acreditavam que se chegasse a esta fase”.A
nova vaga de reconhecimentos internacionais prossegue hoje, com os
anúncios da França, Bélgica, Malta, Luxemburgo, Andorra e São Marino,
engrossando uma lista que já contava com quase 150 outros Estados. “É
tarde, mas é uma obrigação. É uma obrigação legal e moral de todos os
países, incluindo Portugal, porque Portugal é um país amante da paz”,
insistiu.A partir de agora, a chefe da
diplomacia de Ramallah espera que todos estes países estejam obrigados a
cumprir o direito internacional, “em socorro do povo palestiniano que
está sob ocupação há tanto tempo”, num quadro em que apenas uma minoria
de países se coloca ao lado de Israel contra “o mundo inteiro”. A
governante, que, tal como o líder da Autoridade Palestiniana, Mahmud
Abbas, foi impedida pelas autoridades norte-americanas de comparecer em
Nova Iorque na sessão anual da ONU, defende que estes reconhecimentos
“devem ser apreciados como ponto de partida para lutar por mais” ações,
que conduzam ao isolamento de Israel, incluindo sanções, em punição das
suas operações militares na Faixa de Gaza e expansão da ocupação na
Cisjordânia.“O Estado de Israel tem de ser
pressionado política e economicamente”, apelou a ministra palestiniana,
que exige prestação de contas sobre “a impunidade de que [Telavive]
goza há várias décadas e que contribuiu e deu luz verde à opressão e
genocídio em Gaza”.Varsen Aghabekian
aponta vários países europeus, como Espanha, Eslovénia, Bélgica e Países
Baixos, que já estão a tomar medidas contra Israel e que as autoridades
palestinianas “nem sequer pensavam que um dia iriam acontecer”.Do
mesmo modo, pensa que outras deverão seguir-se, a partir da Declaração
de Nova Iorque, impulsionada por França e Arábia Saudita, países que
hoje organizam uma segunda conferência internacional, à margem da
Assembleia-geral da ONU, sobre a solução de dois Estados.A
declaração, convertida em resolução da ONU e aprovada por 142 países,
prevê um cessar-fogo na Faixa de Gaza, o desarmamento do grupo islamita
Hamas, que governa o enclave desde 2007, e a libertação dos reféns na
sua posse, além de uma saída para o conflito israelo-palestiniano
através de uma solução de dois Estados.Ou
seja, o texto implica “compromissos e passos em vários temas, e define
as medidas exatas que devem ser tomadas pelos países subscritores,
individual e coletivamente”, de acordo com a ministra palestiniana, e
que “invariavelmente exercerão uma grande pressão” sobre Israel.Até
ao momento, o Governo israelita tem desvalorizado os reconhecimentos
internacionais da Palestina, argumentando que não terão qualquer efeito
prático, mas Varsen Aghabekian acredita que, se não fossem encarados
como uma ameaça, o Governo israelita não iria expressar publicamente
“tanta frustração”, o que faz antever “mais desafios e entraves”.Isso
significa, segundo explicou, a continuação da política de ocupação de
terras ou até a própria anexação completa da Cisjordânia, como propõe a
ala radical do Governo israelita, donde se destaca o colonato E1 nas
proximidades de Jerusalém ocupada, na prática um projeto que divide o
território em dois, ameaçando a viabilidade do Estado Palestiniano.“Trata-se
de um projeto colonial por excelência e estão a fazer incursões nas
cidades [palestinianas]. Estão a lançar os colonos ainda mais do que
dantes [na Cisjordânia]. Nós sabemos isso. E este é um preço que temos
de pagar e temos vindo a pagar há muito tempo pela nossa liberdade”,
assinalou a governante, que, por outro lado, diz ser contra esta
política que “o mundo está a falar hoje muito claramente”.De
resto, a ministra dos Negócios Estrangeiros observa que as eventuais
retaliações na Cisjordânia às iniciativas diplomáticas ocidentais não
trazem novidade, na medida em que “a anexação é uma política em Israel”,
um país que diz ser construído na base de “um Estado colonial”, que tem
submetido a Palestina à “opressão e medidas unilaterais” e vários tipos
de violações de direitos humanos.“Estão
também a dizer ao mundo que nos rodeia, aos países que nos rodeiam, que
vão pôr em causa a sua soberania”, lamentou, em alusão a outras
operações militares de Israel na região, como no Líbano e na Síria, mas
também os ataques mais recentes contra o Irão e o Qatar.A
dirigente palestiniana espera, por outro lado, que possam ocorrer
mudanças dentro da própria sociedade de Israel, onde as sondagens
sugerem uma maioria favorável à recuperação pela via negocial dos reféns
em posse do Hamas - desde os seus ataques perpetrados há quase dois
anos em solo israelita que desencadearam o conflito na Faixa de Gaza -, e
o fim da guerra, mas não a existência de um Estado Palestiniano.“Seria
importante haver mudanças que venham de dentro de Israel”, defendeu,
ainda que veja um país “à mercê da extrema-direita” que sustenta o
Governo de coligação de Benjamin Netanyahu, e que, “enquanto os colonos,
como são vários ministros, tiverem a maioria, este quebra-cabeças
continuará”.Varsen Aghabekian recomenda
que Israel tente posicionar-se a dez, 15 anos e responda à questão
“muito simples” de que, “se quer viver em paz e segurança na região, tem
de se tornar num Estado normal em harmonia com os seus vizinhos”.Porém,
avisa que, “atualmente, Israel não é um Estado normal e toda a gente
sabe isso”, descrevendo um país que “promove anexações, comete genocídio
e ainda ataca os outros países” da região, de que o bombardeamento,
este mês em Doha, contra a delegação do Hamas presente nas negociações
de um cessar-fogo na Faixa de Gaza é apontado como o exemplo mais
recente. “Se quisermos integrar-nos e
normalizar-nos na zona, temos de nos tornar normais”, insistiu a
ministra palestiniana, para quem é igualmente do interesse dos
israelitas que “os seus filhos e os seus netos forjem a paz”, porque “a
ilusão de segurança e guerra permanente com os seus vizinhos não é
viver”.