Satélite europeu segue hoje para Júpiter com "mão" portuguesa
13 de abr. de 2023, 07:45
— Lusa/AO Online
A
descolagem, a partir da base da ESA em Kourou, onde Portugal estará
representado pelo presidente da agência espacial Portugal Space, Ricardo
Conde, está prevista para as 13h15 (hora de Lisboa, menos uma nos Açores) a bordo de um
foguetão europeu Ariane 5. A missão, que
esteve para ser lançada em 2022, tem o engenheiro aeroespacial Bruno
Sousa como diretor de operações de voo e contou com o engenheiro de
antenas Luís Rolo na fase de testagem de dois dos dez instrumentos do
satélite. Ambos trabalham na ESA há mais de 10 anos.O
satélite inclui componentes fabricados pelas empresas portuguesas
LusoSpace, Active Space Technologies, Deimos Engenharia e FHP - Frezite
High Performance e um instrumento desenvolvido em parte pela Efacec e
pelo LIP - Laboratório de Instrumentação e Física Experimental de
Partículas, do qual a investigadora Patrícia Gonçalves foi responsável.Juice
(JUpiter ICy moons Explorer, Explorador das Luas Geladas de Júpiter)
irá estudar o maior planeta do Sistema Solar e as luas Europa, Ganimedes
e Calisto, onde os cientistas pensam que possa existir água líquida
(elemento fundamental para a vida tal como se conhece) sob as crostas de
gelo à superfície.O satélite deverá
chegar ao gigante gasoso passados oito anos, em julho de 2031, fazer 35
voos de aproximação às luas geladas e alcançar Ganimedes em dezembro de
2034.Será a primeira vez que um satélite artificial orbitará uma lua de outro planeta. Espera-se
que a missão da ESA, que custou cerca de 1,6 mil milhões de euros e
teve a colaboração das agências espaciais norte-americana (NASA),
japonesa (JAXA) e israelita (ISA) em termos de instrumentação e
'hardware', termine em setembro de 2035. Os primeiros dados científicos são expectáveis em 2032.Júpiter
é 11 vezes maior do que a Terra e é composto maioritariamente por gás,
como o Sol. Ganimedes é a maior das luas do Sistema Solar e tem um
grande oceano sob a sua superfície.A
missão da ESA foi concebida para averiguar se haverá sítios em redor de
Júpiter e no interior das luas geladas com as condições necessárias
(água, energia, estabilidade e elementos biológicos) para suportar vida.Enquanto
diretor de operações de voo, Bruno Sousa acompanha "a fase crítica" do
lançamento do satélite, ajuda uma das equipas que lidera a tomar
decisões para garantir que o engenho entrará depois "na fase de
cruzeiro"."O meu papel como diretor de voo
é, sobretudo, ajudar a equipa na tomada de decisões difíceis e tomar
responsabilidade pelo curso de ações decidido e supervisionar a sua
execução", afirmou à Lusa.Findo o
lançamento, Bruno Sousa deixará esta missão e continuará a ser
responsável por outras missões interplanetárias da ESA em curso,
nomeadamente na órbita de Mercúrio (BepiColombo) e do Sol (Solar
Orbiter). Sobre o satélite Juice, o
engenheiro aeroespacial, que é funcionário da ESA desde 2007, disse que
"vai poder estudar Júpiter como protótipo de gigantes de gás", ajudando
na "exploração de exoplanetas" (planetas fora do Sistema Solar).Como
desafios da missão, Bruno Sousa apontou as comunicações com o satélite e
a produção de energia, dada a distância a que Júpiter está da Terra e
do Sol, e a radiação, que obrigou à instalação de "grande parte" dos
componentes eletrónicos em "cofres".Além
de escudos que protegem os componentes eletrónicos sensíveis da elevada
radiação, de painéis solares de alimentação de energia e de uma camada
isolante contra as temperaturas extremas, o satélite dispõe de uma
antena para enviar dados para a Terra e de um computador para resolver
alguns problemas de modo independente.Uma
antena, a mais pequena das duas acopladas, tem um revestimento térmico
produzido pela empresa portuense FHP e o seu mecanismo de funcionamento
foi desenvolvido pela Active Space Technologies, com sede em Coimbra.Luís
Rolo, engenheiro de antenas, trabalhou noutras antenas para a missão
Juice. Funcionário da ESA há 18 anos, testou a antena do radiotelescópio
que irá estudar as atmosferas de Júpiter, Europa, Ganimedes e Calisto e
a antena da sonda-radar que permitirá, através da receção de sinais,
determinar a existência de água subterrânea nas três luas. Um
outro instrumento do satélite, o monitor de radiação, que é um detetor
de partículas energéticas, foi desenvolvido pelo LIP e pela Efacec, em
cooperação com a empresa norueguesa Ideas e o instituto de investigação
suíço Paul Scherrer.A Efacec esteve,
ainda, envolvida na construção de um instrumento que monitorizará o
estado de conservação dos painéis solares do satélite, visando "uma
melhor gestão da energia na chegada a Júpiter, onde a luz solar é
pouca".A LusoSpace desenvolveu uma bobina
que gera um campo magnético "que será uma referência" para o
magnetómetro, um aparelho a bordo do satélite que vai caracterizar o
intenso campo magnético de Júpiter e a sua interação com o da lua
Ganimedes.O trabalho da Deimos Engenharia
consistiu "em melhorar a estratégia de navegação autónoma de base da
missão" durante o voo de passagem pela lua Europa e "durante a fase
orbital de Ganimedes".Atualmente, o único satélite artificial em órbita de Júpiter é o Juno, da NASA.Portugal é Estado-membro da ESA desde 2000.