São João estuda como prolongar benefícios de estimulação profunda em casos de Parkinson
18 de nov. de 2024, 16:00
— Lusa/AO Online
“Quando
os doentes são submetidos à cirurgia melhoram muito os sintomas na fase
inicial. É como se fosse um período de lua-de-mel. Mas é um período
transitório e, ao fim de duas semanas, a doença volta e é preciso ligar a
estimulação e retomar a medicação. Não sabemos o que se passa neste
período inicial em que o doente melhora muito e a ideia é estudar
estudá-lo para podermos, no futuro, repeti-lo”, explicou, à Lusa, o
médico Manuel Pinto.Médico do serviço de
neurocirurgia da Unidade Local de Saúde do São João (ULSSJ), Manuel
Pinto foi distinguido com o 2024 Research Fund [bolsa de investigação]
da Sociedade Europeia de Neurocirurgia, pelo projeto
“Electrophysiological characterization of the microlesion effect after
deep brain stimulation in patients with Parkinson’s disease” que, em
português, significa “caracterização eletrofisiológica do efeito de
microlesão após estimulação cerebral profunda em pacientes com doença de
Parkinson”.Esta bolsa – que foi pela
primeira vez atribuída a um projeto português – permitirá estudar as
ondas de atividade cerebral de doentes com Parkinson, submetidos a
cirurgia de estimulação cerebral profunda (DBS).Na
prática, será utilizada uma tecnologia recente de elétrodos implantados
em regiões cerebrais profundas que, para além de estimularem o cérebro,
têm a capacidade de captar e registar as ondas de atividade cerebral
dos pacientes, de forma contínua, de segundo em segundo, desde o dia em
que são implantados e durante a sua vida quotidiana.Elétrodos
são fios elétricos que são implantados no cérebro e atuam no núcleo
subtalâmico, área envolvida na forma como controlamos os movimentos do
corpo que está alterada na doença de Parkinson.Esta
nova tecnologia foi pela primeira vez usada no São João em 2020, mas só
após 2023 começou a ser utilizada de forma mais rotineira.É
um estimulador com várias vantagens face aos anteriores porque é mais
pequenino, menos incómodo, e a bateria dura mais, por exemplo.“Além
de estimular o cérebro, também regista a atividade cerebral que está a
acontecer à volta do elétrodo. Conseguimos medir a atividade cerebral do
neurónio e registamo-la de uma forma contínua”, explicou Manuel Pinto
que trabalha no serviço de neurocirurgia da ULSSJ desde 2015 e fez
doutoramento na Suíça na área de circuitos cerebrais que controlam o
movimento.Este projeto vai decorrer na
ULSSJ com a colaboração dos serviços de Neurocirurgia e de Neurologia e
do i3S - Instituto de Investigação e Inovação em Saúde, grupos de
Neuroengenharia e Neurociência Computacional.A atribuição desta bolsa de investigação acontece desde 2017 e já financiou 58 projetos.Segundo
Manuel Pinto, estudos internacionais estimam que mais ou menos 10% dos
doentes com Parkinson seriam candidatos e beneficiariam de tratamento
com cirurgia.Desenvolvido pela equipa do
São João que teve acesso a dados nacionais, foi feito recentemente um
estudo estimativo que mostra que Portugal só está a operar um terço dos
doentes que deveria operar.“Deveríamos
fazer mais cirurgias do que as que fazemos”, lamentou o médico que
atribui esta realidade ao desconhecimento da população e de “alguma
comunidade médica, nomeadamente à que está mais longe dos grandes
centros hospitalares”, bem como aos receios, porque “meter fios
elétricos no cérebro pode parecer coisa de ficção científica”.“Há
estudos que mostram que há pessoas que sobrevalorizam os riscos reais
riscos da cirurgia. Esta cirurgia tem um perfil de segurança bastante
elevado. Aqui temos capacidade de resposta para mais mas só conseguimos
tratar os que nos chegam”, sublinhou.