Santos Silva diz que regulação cabe a entidades competentes independentes
Luanda Leaks
20 de jan. de 2020, 18:32
— Lusa/AO Online
No final de uma reunião de
chefes da diplomacia da União Europeia em Bruxelas, ao ser questionado
sobre se as revelações da investigação jornalística “Luanda Leaks”
beliscam de alguma forma as autoridades portuguesas, por não terem sido
detetadas transações suspeitas e esquemas alegadamente fraudulentos com
apoio de facilitadores portugueses, Augusto Santos Silva disse que a
resposta é “simples” e lembrou que “o Governo é independente dos
reguladores independentes”.“À luz da lei
portuguesa, as atividades bancárias são reguladas por uma autoridade
chamada Banco de Portugal (BdP), as atividades relacionadas com o
mercado de capitais são reguladas por uma entidade chamada Comissão de
Mercados de Valores Mobiliários (CMVM). Trata-se de dois reguladores
independentes do Governo, portanto o Governo não tem comentários a
fazer”, respondeu.Santos Silva acrescentou
estar “certo de que quaisquer informações que venham e que contenham
indícios de natureza criminal serão investigadas pelas autoridades
judiciais e quaisquer informações que venham e que tenham indícios de
natureza contraordenacional serão investigadas pelas entidades
respetivas”. “A independência vale nos
dois sentidos: são independentes do Governo e o Governo também é
independente dos reguladores independentes”, disse.Questionado
sobre se estas revelações podem prejudicar as relações entre Portugal e
Angola, o ministro comentou que a resposta ainda é “mais fácil”,
acrescentando logo que seguida que a mesma “É: não, de todo, pelo
contrário”. “E, já agora, permitam-me que
aproveite esta oportunidade para dizer que talvez agora se perceba
melhor a insistência do ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal,
desde pelo menos dezembro de 2015, de manter o melhor relacionamento
possível com as autoridades angolanas, de manter o nível de
relacionamento entre os dois Estados no mais alto dos patamares, porque é
justamente esse relacionamento que permite que ambos os países defendam
os seus interesses e ambos os países cooperem para que o relacionamento
entre as respetivas economias seja bom, porque claro e transparente”,
comentou.Por fim, questionado sobre se já
teve oportunidade de falar com o seu homólogo angolano desde a
publicação da investigação “Luanda Leaks”, Santos Silva comentou que
“hoje ainda não”, recordou os contactos regulares que ambos têm e disse
que não há necessidade de falarem especificamente em breve sobre esta
matéria. “Hoje ainda não. Eu estive desde
quarta-feira em Moçambique, depois passei rapidamente por casa para
mudar a roupa e vim para Bruxelas ontem de manhã. Mas devo dizer também
que não preciso [de falar], porque falo com suficiente regularidade,
falo com suficiente profundidade e falo com suficiente franqueza para
que as coisas sejam claras para ambos. Aliás, devo recordar que a última
vez que me reuni com as autoridades angolanas foi acompanhando o
Presidente da República de Portugal em Maputo na passada quarta-feira,
aí pelas 4 da tarde locais, e a seguir dei uma conferência de imprensa
conjunta com o meu colega e amigo ministro das Relações Exteriores de
Angola, Manuel Augusto”, concluiu.Um
consórcio de jornalismo de investigação revelou no domingo mais de 715
mil ficheiros, sob o nome de "Luanda Leaks", que detalham esquemas
financeiros de Isabel dos Santos e do marido, Sindika Dokolo, que
estarão na origem da fortuna da família.O
Consórcio Internacional de Jornalismo de Investigação (ICIJ), que
integra vários órgãos de comunicação social, entre os quais o Expresso e
a SIC, analisou, ao longo de vários meses, 356 gigabytes de dados
relativos aos negócios de Isabel dos Santos entre 1980 e 2018, que
ajudam a reconstruir o caminho que levou a filha do ex-presidente
angolano a tornar-se a mulher mais rica de África.Durante
a investigação, foram identificadas mais de 400 empresas (e respetivas
subsidiárias) a que Isabel dos Santos esteve ligada nas últimas três
décadas, incluindo 155 sociedades portuguesas e 99 angolanas.As
informações recolhidas detalham, por exemplo, um esquema de ocultação
montado por Isabel dos Santos na petrolífera estatal angolana Sonangol,
que lhe permitiu desviar mais de 100 milhões de dólares (90 milhões de
euros) para o Dubai.Revelam ainda que, em
menos de 24 horas, a conta da Sonangol no Eurobic Lisboa, banco de que
Isabel dos Santos é a principal acionista, foi esvaziada e ficou com
saldo negativo no dia seguinte à demissão da empresária.
A ex-eurodeputada socialista Ana Gomes acusou este domingo o Banco de
Portugal, a Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) e a
Procuradoria-Geral da República de serem “coniventes” com os esquemas
alegadamente fraudulentos da empresária angolana Isabel dos Santos.A
ex-eurodeputada revelou a “cumplicidade” das autoridades portuguesas
com esta “roubalheira organizada da cleptocracia que espolia o povo
angolano”. “Obviamente que as autoridades
[portuguesas] não podem continuar não só cegas, mas coniventes, porque é
isso que tem acontecido. Sucessivos governos e governantes, alguns, em
particular o Banco de Portugal e a CMVM, autoridades políticas e
judiciais deveriam ter atuado”, disse Ana Gomes, estendendo as críticas à
PGR portuguesa: “Muita desta informação já se sabia, além das minhas
denúncias concretas”.