Santa Casa de Lisboa candidata à UNESCO arquivo com 90 mil sinais da “Roda dos Expostos"
14 de nov. de 2025, 13:09
— Lusa/AO Online
Em
declarações à agência Lusa, a diretora da Cultura da Santa Casa da
Misericórdia de Lisboa (SCML) adiantou que a candidatura foi entregue na
semana passada à comissão nacional da UNESCO (Organização das Nações
Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) e inclui 89.929 sinais
que acompanhavam as crianças deixadas na “roda”.A
Roda dos Expostos, como se chamava, era um mecanismo cilíndrico, de
madeira, instalado em instituições como a Santa Casa da Misericórdia,
que permitia que um bebé fosse ali deixado anonimamente, e que foi
criado como alternativa ao abandono na rua ou ao infanticídio.Teresa
Nicolau explicou que, ao longo dos anos, a instituição “teve o cuidado
de digitalizar e de trabalhar estes mais de 89 mil sinais expostos à
roda”.“Este arquivo, para além de ser o
maior do mundo, porque é em termos de quantidade nesta área, é também um
dos mais bem preservados”, revelou.Estes
sinais eram objetos que os pais deixavam junto do recém-nascido que era
colocado na Roda dos Expostos para que fosse possível identificá-lo no
futuro.“Temos sinais que contemplam desde
mechas de cabelo, a pequeno pedaço de fita, cartas de lugares rasgadas
ao meio, fotografias, fitinhas às vezes em seda, em tecidos muito, muito
nobres, outros não”, explicou.Segundo
Teresa Nicolau, a candidatura a património da UNESCO é feita em conjunto
com Argentina, três instituições da Bélgica, com a cidade italiana de
Florença e tem também sinais do arquivo da Santa Casa da Misericórdia do
Porto.Teresa Nicolau disse que, depois da
candidatura entregue, pode demorar cerca de um ano e meio até que haja
uma resposta por parte da UNESCO.A
responsável apontou que a candidatura conjunta não só tem mais peso,
como demonstra que “estes sinais tinham uma espécie de linguagem
universal nas rodas pelo mundo inteiro” e explicou que a exposição é um
dos requisitos da candidatura.Teresa
Nicolau disse que a exposição “Filhos de Todos … filhos de quem? Os
expostos da roda de Lisboa” é inaugurada no dia 17 de novembro e vai
estar patente até 29 de março de 2026, e salientou que “a inovação desta
grande exposição” está no facto de “contar as histórias das pessoas”,
nomeadamente através de testemunhos reais de “descendentes de crianças
que foram expostas à roda e [de] quem a Santa Casa cuidou”.“Nós
somos a única instituição em que acolhemos uma criança e a sua
descendente, a sua bisneta, tornou-se provedora da Santa Casa”, contou,
referindo-se a Ana Jorge, provedora da Santa Casa de Lisboa entre maio
de 2023 e abril de 2024, cuja bisavó foi deixada na roda, criada por uma
ama de leite, tendo mais tarde casado na Igreja de São Roque, em
Lisboa.A diretora da Cultura recordou
outro momento de uma “comoção incrível”, quando em 15 de janeiro de 2025
abriram uma carta que estava no arquivo, datada do século XIX, relativa
a uma criança chamada Maria das Dores.“Quando
nós abrimos a carta, a carta tinha a data de 15 de janeiro de 1825. Ou
seja, nós, exatamente no mesmo dia, 200 anos depois, abrimos a carta da
Maria das Dores novamente. E isso foi de uma comoção incrível”, relatou,
acrescentando que posteriormente descobriram que a criança tinha não só
sobrevivido à “roda”, como saiu da Santa Casa aos 27 anos para se
casar.“Foi absolutamente comovente como esta Maria das Dores sobreviveu e estivemos com ela 200 anos depois”, acrescentou.Teresa
Nicolau referiu que a data escolhida para a inauguração da exposição
assinala os 500 anos da morte da Rainha Dona Leonor, fundadora da Santa
Casa da Misericórdia de Lisboa, e salientou que a exposição inclui
também obras de Paula Rego, Almada Negreiros, Júlio Pomar e Graça
Morais, além da “única obra de Leonardo Da Vinci em Portugal”, um
desenho de uma mulher a dar banho a uma criança, que estava em repouso
desde 2021 e que é Tesouro Nacional.Disse ainda que a SCML vai candidatar o Arquivo Histórico da instituição a Tesouro nacional.