Sánchez afasta financiamento ilegal no PSOE entre gritos de "demissão" de deputados
18 de jun. de 2025, 17:34
— Lusa/AO Online
Sánchez,
líder do Governo e do PSOE, foi pela primeira vez ao parlamento
após ter admitido, na semana passada, que há "indícios muito graves" de
corrupção por parte de ex-dirigentes do partido, na sequência da
divulgação de um relatório de investigação policial e gravações de
conversas telefónicas entre figuras da cúpula socialista próximas do
primeiro-ministro.O parlamento espanhol
tem às quartas-feiras de manhã uma "sessão de controlo ao Governo", em
que os membros do executivo respondem a perguntas dos deputados, tendo
Sánchez sido questionado sobre a corrupção no PSOE pelo Partido
Popular (PP, direita e maior força da oposição), Vox (extrema-direita) e
Esquerda Republicana da Catalunha (ERC, independentistas catalães, que
viabilizaram os últimos governos espanhóis liderados pelos socialistas).O
líder do PP, Alberto Núñez Feijóo, acusou o primeiro-ministro de ser "o
lobo que liderou uma manada corrupta", enquanto o deputado da ERC
Gabriel Rufián pediu a Sánchez mais garantias e medidas em relação às
suspeitas de corrupção.Nas respostas, e em
meio de um coro de gritos de "demissão" oriundo da bancada do PP,
Sánchez garantiu de novo que o PSOE "é uma organização limpa" e
sublinhou que a investigação policial da semana passada não assinala
suspeitas de financiamento ilegal do partido, estando em causa atuações
pessoais."Não vou aceitar que se
transforme um episódio numa categoria porque a esquerda não é corrupta, a
esquerda não rouba e a minha organização é limpa", afirmou.Sánchez
reconheceu que o PSOE e ele próprio estão a lidar há uma semana com um
"golpe doloroso", mas afirmou que atuou "com contundência" perante as
suspeitas, exigindo a demissão imediata de todos os cargos aos
envolvidos.O primeiro-ministro voltou
também a recusar a possibilidade de se demitir ou adiantar eleições -
previstas para 2027 - e reiterou o desafio à oposição de direita para
apresentar uma moção de censura.Ainda
dirigindo-se à oposição de direita, Sánchez realçou que não há sentenças
que condenem o PSOE ou dirigentes socialistas por corrupção desde que
está à frente do partido, ao contrário do que aconteceu na última década
com o PP, que acusou de ser "uma enciclopédia de corrupção".O
líder do PP, por seu turno, voltou a admitir avançar com uma moção de
censura, se conseguir os apoios suficientes no parlamento que garantam a
sua aprovação. Até agora, Feijóo tem dito que não avança com a moção
porque o mais provável é ser rejeitada, o que acabaria por se
transformar num reforço da legitimação de Sánchez como primeiro-ministro
e num "balão de oxigénio" ao líder do Governo.A
suspeita de corrupção na cúpula do PSOE abriu uma crise em Espanha que
analistas, dirigentes partidários e imprensa consideram quase
unanimemente colocar em risco a sobrevivência política do
primeiro-ministro, Pedro Sánchez.A justiça
espanhola anunciou na quinta-feira passada haver "indícios
consistentes" de corrupção contra o então “número três” do PSOE e
deputado Santos Cerdán.O Tribunal Supremo
de Espanha disse, em comunicado, que na sequência de um relatório de uma
investigação policial a um antigo ministro dos Transportes de Sánchez
(José Luis Ábalos), a justiça concluiu haver também "indícios
consistentes" contra Santos Cerdán, por suspeita de negociação de
comissões de pelo menos 620 mil euros na adjudicação de obras públicas.Ábalos
foi ministro entre 2018 e 2021. Santos Cerdán era o “número três” do
PSOE desde 2017, quando sucedeu no cargo a Ábalos. Os dois foram os
maiores e mais reconhecidos apoiantes de Sánchez nas primárias do PSOE
de 2014 e no caminho que depois o levou a liderar o Governo pela
primeira vez, em 2018. Cerdán foi também o
homem que negociou com os independentistas catalães a amnistia que
assegurou a reeleição de Sánchez como primeiro-ministro em 2023.Primeiro-ministro
desde 2018, Sánchez voltou a ser eleito para o cargo pelo parlamento
espanhol em novembro de 2023, por uma geringonça composta por oito
partidos. Para já, a geringonça que o
reelegeu limitou-se a pedir-lhe mais explicações e medidas
"contundentes" contra a corrupção no PSOE, mas não lhe retirou o apoio e
os partidos têm dito que não vão contribuir para a eleição de um
Governo de direita e de extrema-direita em Espanha.