Sánchez acata decisão do Constitucional apesar de atentar contra soberania popular
20 de dez. de 2022, 14:10
— Lusa/AO Online
"Pela
primeira vez" em 44 anos de democracia em Espanha, "impedem-se os
representantes legítimos, democraticamente eleitos pelos espanhóis com o
seu voto, de realizarem a sua função de representação dessa vontade
popular", afirmou Sánchez, numa declaração a partir da sede do Governo
espanhol, em Madrid.O primeiro-ministro
realçou que este é "um facto grave" e sem precedentes também no resto da
Europa, e disse entender "a indignação de muitos democratas" e "a
preocupação da sociedade" perante um "choque institucional tão grave e
tão inédito" na história recente espanhola e europeia e a
"vulnerabilização do princípio básico da soberania popular".Sánchez
deixou "uma mensagem de serenidade" e disse a decisão do TC será
acatada pelo Governo, apesar de discordar dela, por respeito pelas
instituições do estado de direito.O
Tribunal Constitucional (TC) de Espanha decidiu na segunda-feira à noite
impedir o debate e votação de uma iniciativa no Senado, numa decisão
inédita na democracia espanhola de ingerência na atividade parlamentar.Está
aberta uma "crise institucional sem precedentes" na democracia
espanhola, afirmou o presidente do Senado, Ander Gil, numa declaração
após ser conhecida decisão do TC, tomada com seis votos a favor e cinco
contra.A decisão foi tomada pelos juízes
do Tribunal Constitucional a pedido do Partido Popular (PP, direita, na
oposição) e tem como alvo uma mudança na legislação que regula a eleição
de juízes do próprio TC e do Conselho Geral do Poder Judicial.O
PP pediu, num recurso para o TC, uma medida cautelar e invocou que
foram atropelados procedimentos parlamentares, por parte dos partidos no
Governo (socialistas e plataforma de extrema-esquerda Unidas Podemos),
que recorreram a mecanismos que permitiriam concretizar as mudanças
legislativas em poucos dias e sem debate no Congresso e no Senado, as
duas câmaras das Cortes espanholas.Para o
PP, os deputados e senadores foram impedidos de exercer os seus direitos
constitucionais de participação política, ainda por cima estando em
causa mudanças em leis fundamentais, relacionadas com o funcionamento de
órgãos judiciais e que são o garante do cumprimento da própria
Constituição.O presidente do Senado, Ander
Gil, a presidente do Congresso, Meritxell Batet, ambos do partido
Socialista (PSOE) já disseram que vão acatar a decisão do TC, por
respeitarem as instituições do Estado de direito, mas anunciaram que a
vão contestar e sublinharam a sua gravidade.Na
declaração que fez hoje, Sánchez condenou os juízes do TC por terem
decidido desta forma numa matéria que afeta a sua própria continuidade
nos cargos, em alguns casos, já caducados.O
primeiro-ministro culpou o PP por esta situação, por o maior partido da
oposição bloquear há quatro anos, desde que os socialistas e a Unidas
Podemos governam, a substituição dos juízes do TC e do Conselho do Poder
Judicial, como estabelece a Constituição, havendo vários magistrados
com mandatos caducados há anos.O "único
propósito" que tem o PP é manter nos dois órgãos "uma composição
anterior mais favorável à sua orientação" e "um poder que os cidadãos
não validaram nas urnas", afirmou Sánchez.O
primeiro-ministro espanhol e líder do PSOE, prometeu tomar quantas
medidas forem necessárias, dentro do cumprimento da Constituição, para
acabar com o bloqueio na substituição de juízes e fazer assim cumprir a
lei e "a vontade popular manifestada nas eleições de 2019".O
líder do PP, Alberto Nuñez Feijóo, tem agendada uma conferência de
imprensa para hoje, mas na segunda-feira à noite já escreveu no Twitter
que a democracia espanhola ficou "fortalecida" com a decisão do TC
porque "num estado de direito, todos os poderes estão submetidos à lei".As
mudanças na eleição dos juízes do TC e do Conselho do Poder Judicial
pretendiam diminuir as maiorias necessárias para as escolhas de alguns
dos magistrados, depois de quatro anos sem o acordo necessário entre os
partidos no Governo e o PP para substituir elementos das duas
instituições.O PP recusa fazer acordos com
o PSOE por o Governo espanhol fazer pactos e negociar com partidos
independentistas catalães e bascos, que querem “romper Espanha” e
atentam contra a Constituição. Perante a
falta de acordo, não há no TC ou no Conselho do Poder Judicial,
atualmente, juízes indicados na legislatura iniciada em 2019, em que
governa a esquerda.No Conselho do Poder Judicial e no TC mantém-se assim uma "maioria conservadora", conectada com o PP e a direita em geral.Para
contornar o bloqueio, PSOE e Unidas Podemos usaram a figura das
"emendas" e da "tramitação urgente" previstas no regulamento parlamentar
para fazer a alteração legislativa que ia ser votada no Senado na
próxima quinta-feira e que já tinha sido aprovada pelo Congresso na
semana passada, pela maioria formada pelos dois partidos no Governo e
partidos nacionalistas bascos e catalães, entre outras formações.A
forma como PSOE e Unidas Podemos queriam fazer aprovar esta mudança no
funcionamento de dois órgãos tão sensíveis como o TC ou o Conselho do
Poder Judicial tem sido criticada por ser "um atalho" ou "um atropelo"
legislativo, que impede o debate parlamentar.