Salgado entre o líder de uma associação criminosa e o doente que quer evitar o julgamento
BES/GES
14 de out. de 2024, 15:21
— João Paulo Godinho/Lusa/AO Online
A
primeira sessão está marcada para as 09h30 (menos uma nos Açores), no Juízo Central Criminal
de Lisboa, e o antigo presidente do Grupo Espírito Santo (GES) é o rosto
incontornável do processo principal do denominado Universo Espírito
Santo, respondendo por 62 crimes, após três dos 65 crimes inicialmente
imputados na acusação proferida pelo Ministério Público (MP) terem
prescrito recentemente (e com mais 10 na rota da prescrição até final de
março de 2025).Estão ainda imputados a
Ricardo Salgado um crime de associação criminosa, 12 de corrupção ativa
no setor privado, 29 de burla qualificada, cinco de infidelidade, um de
manipulação de mercado, sete de branqueamento de capitais e sete de
falsificação de documento, praticados pelo menos entre 2009 e 2014 e
pelos quais vai ter de responder perante o coletivo de juízes presidido
pela magistrada Helena Susano.Foi a 14 de
julho de 2020, na sequência de seis anos de investigação, que a
Procuradoria-Geral da República confirmou a queda em desgraça do homem
que chegou a ser apontado como o "Dono Disto Tudo". Não chegou o MP a
recorrer a esta expressão ao longo das mais de 4.000 páginas da
acusação, mas a ideia perpassa todo o texto, ao invocar que governou o
GES "de forma autocrática" e que foi o principal responsável pelo
colapso do grupo e do banco.“[Foi] o
responsável por uma estrutura de governo da parte financeira do GES
assente em conflito de interesses, em que o seu prevaleceu, e com
organismos de controlo inoperantes, quer externos quer internos, a quem
sonegou informação elementar sobre o modo como organizou o negócio
bancário, e nele recrutou, a soldo, um conjunto de funcionários que
foram posicionados para os seus desígnios criminosos”, indicou o MP no
despacho de acusação.Para os procuradores
que o investigaram, liderados por José Ranito, atual Procurador europeu
português, Ricardo Salgado “logrou apropriar-se de património de
terceiros no âmbito do negócio financeiro do Grupo, onde fez circular
dívida das entidades não financeiras, independentemente da legitimidade
para o exercício dessa atividade, ou das condições patrimoniais destas
empresas”.Na ótica do MP, o ex-banqueiro
mascarou a realidade do grupo com a "produção sistemática e sucessiva de
demonstrações financeiras falsas", que foram divulgadas a “acionistas,
credores, auditores de empresas do GES, supervisores, nacionais e
estrangeiros", como terá sido o caso da falsificação das contas da
sociedade Espírito Santo International (ESI). E
tal só terá sido possível, segundo a acusação, com a “existência de
células organizadas, com domínio de assuntos de auditoria, de
supervisão, do circuito bancário e do circuito de intermediação
financeira para a prática deliberada de atos criminosos, e de todos os
conexos a impedir a sua deteção e permitir a sua dissimulação na
normalidade de uma atividade particularmente complexa”.Desde
então já se passaram quatro anos e uma longa fase de instrução que
validou na íntegra as acusações ao ex-presidente do GES. Foi durante
este período que o estado de saúde de Ricardo Salgado se deteriorou
também, com a defesa a apresentar sucessivos relatórios de diagnóstico
de doença de Alzheimer, bem como pedidos de perícias neurológicas.Argumentando
que o ex-banqueiro, de 80 anos, “não está em condições de,
pessoalmente, exercer a sua defesa”, Francisco Proença de Carvalho e
Adriano Squilacce manifestaram na sua contestação à acusação a crença de
que “o populismo não se sobreporá à aplicação da lei e da Constituição
da República Portuguesa” e avisaram que “Portugal pode ser condenado
pelo Tribunal Europeu dos Direitos Humanos” se continuar com o
julgamento de Salgado.“Deve ser
determinada a extinção do presente processo-crime quanto ao arguido, em
razão da sua situação clínica, que o impede de exercer, pessoalmente, o
seu direito de defesa. Caso assim não se entenda, deve ser determinada a
suspensão do presente processo quanto ao arguido, enquanto perdurar a
sua atual situação clínica. Em qualquer caso, o arguido deve ser
absolvido quanto a todos os crimes”, resumiu a defesa.Porém,
os advogados foram mais longe e, independentemente da questão de saúde,
defenderam que Salgado “fez tudo o que estava ao seu alcance para que o
desfecho não fosse o que ocorreu no verão de 2014”, ao considerarem que
a responsabilidade pelo colapso passou pelo Banco de Portugal e que a
tese do "Dono Disto Tudo" foi “uma narrativa oportunista aproveitada por
muitos”. Além de refutar todos os crimes,
a defesa de Salgado centra-se na imputação de associação criminosa para
a descrever como uma “autêntica fantasia” do MP, ao notar que nem o GES
e nem o BES tinham por finalidade a prática de crimes. “Se tivesse
havido uma qualquer resolução de associação criminosa desde 2009 até
2014, o arguido certamente não teria arriscado e investido o seu
património pessoal no GES e no BES”, observaram.A
defesa alegou, por isso, que a história do BES/GES “não pode ser
reduzida a uma ‘associação criminosa’” às ordens de Salgado e que a
acusação por esse crime é feita “de uma forma escandalosamente
infundada” pelo MP. Assinalaram também diversas nulidades e indicaram
que as imputações ao ex-banqueiro são genéricas, denunciando uma “mão
cheia de nada”.Considerado um dos maiores
processos da história da justiça portuguesa, este caso agrega no
processo principal 242 inquéritos, que foram sendo apensados, e queixas
de mais de 300 pessoas, singulares e coletivas, residentes em Portugal e
no estrangeiro. Segundo o MP, a derrocada do GES terá causado prejuízos
superiores a 11,8 mil milhões de euros.