Rússia evitará reuniões sobre Ucrânia durante presidência do Conselho de Segurança
ONU
29 de mar. de 2023, 10:57
— Lusa/AO Online
A poucos dias
de Moscovo assumir a presidência mensal rotativa deste órgão máximo da
ONU, Richard Gowan, um especialista no sistema das Nações Unidas,
Conselho de Segurança e em operações de manutenção da paz, afirmou à
Lusa que o rascunho do calendário da Rússia para as reuniões do Conselho
de Segurança em abril "não é muito ambicioso" e que os russos irão
evitar agendar formalmente muitas reuniões sobre a Ucrânia, país alvo de
uma ofensiva militar russa desde fevereiro de 2022. "Na
verdade, está a tentar reduzir o número de reuniões para os mínimos.
Suspeito que os russos percebem que esta presidência é uma fonte
potencial de embaraço para eles e querem evitar muitas reuniões públicas
onde os aliados da Ucrânia possam atacá-los. Portanto, pode ser um mês
surpreendentemente tranquilo na ONU", avaliou o analista.À
Lusa, Richard Gowan disse que a Rússia planeia um debate sobre o estado
do multilateralismo, naquela que seria uma oportunidade para os russos
argumentarem que os Estados Unidos prejudicam a cooperação internacional
através do uso de sanções unilaterais ou exportações de armas."Há
rumores de que Serguei Lavrov [ministro dos Negócios Estrangeiros
russo] poderia comparecer a este evento. Tenho a certeza de que será uma
oportunidade para uma grande discussão, e a Rússia espera que os
chineses apoiem fortemente a sua posição contra os norte-americanos. Mas
não terá resultados reais", referiu.A
partir de abril, e segundo o cronograma da ONU, a Rússia (um dos cinco
membros permanentes do Conselho com poder de veto) deverá assumir a
presidência rotativa do órgão, que tem capacidade de fazer aprovar
resoluções com caráter vinculativo.Contudo,
nas últimas semanas, o representante permanente da Ucrânia junto das
Nações Unidas, Sergiy Kyslytsya, tem apelado publicamente à organização
para que não permita a presidência russa."Na
noite da invasão [russa da Ucrânia], [o secretário-geral da ONU]
António Guterres classificou-o de 'o dia mais triste do seu mandato'; na
verdade, o dia mais triste da história da ONU será o 01 de abril de
2023, quando, a menos que a justiça prevaleça, a Rússia assumir a
presidência do Conselho de Segurança", disse Kyslytsya na rede social
Twitter.De acordo com Gowan, aliados da
Ucrânia procuraram opções para bloquear a entrada da Rússia na
presidência rotativa mensal do Conselho de Segurança, "mas não
investiram muita energia" nesse objetivo, uma vez que, segundo
argumentou, "não existe um mecanismo fácil para fazê-lo nas regras de
procedimento do Conselho"."Os diplomatas
ocidentais parecem resignados a aturar a Rússia na presidência. Membros
não-ocidentais do Conselho não apoiam um grande esforço para bloquear a
Rússia, em parte porque isso criaria um precedente para o Conselho
rejeitar outras nações como presidentes no futuro", observou.Para
Richard Gowan, que é diretor do departamento da ONU no International
Crisis Group - uma organização não-governamental (ONG) voltada para a
resolução e prevenção de conflitos armados internacionais -, os
diplomatas junto à ONU ainda acreditam que a Rússia pode tentar uma
manobra diplomática inesperada durante a sua presidência, "mas ninguém
sabe realmente o que isso pode envolver"."Uma
opção seria a Rússia solicitar uma reunião sobre o 'plano de paz' da
China para a Ucrânia, que os Estados Unidos e aliados rejeitam. A Rússia
esperaria que a maioria dos membros não-ocidentais do Conselho
oferecesse pelo menos um apoio provisório ao plano, e mesmo os europeus
tentariam evitar críticas diretas a Pequim", avaliou o analista.Apesar
de toda a expectativa em torno desta presidência, Gowan recordou que a
Rússia também presidiu ao órgão em fevereiro de 2022, ocasião em que os
diplomatas russos "foram muito cuidadosos em seguir o livro de regras da
ONU corretamente"."Pode parecer estranho,
mas a Rússia pode simplesmente priorizar a gestão profissional do
Conselho e limitar o número de discussões importantes em abril. Querem
dar a impressão de que ainda são um membro responsável da ONU, apesar da
sua agressão contra a Ucrânia", acrescentou.Uma
intenção dada como certa são os planos de Moscovo de realizar uma
reunião informal do Conselho de Segurança no início de abril sobre
aquilo que classifica ser “a situação real” das crianças ucranianas
levadas para a Rússia, segundo indicou o embaixador russo junto na ONU,
Vasily Nebenzya.O anúncio seguiu-se à
divulgação de um relatório da Comissão de Inquérito da ONU sobre a
Ucrânia, que disse que havia evidências da transferência ilegal de
centenas de crianças ucranianas para a Rússia. Nebenzya
argumentou que a questão das crianças é “totalmente exagerada” e disse
que Moscovo planeia convocar essa reunião por volta de 06 de abril, para
explicar que esses menores foram levados para garantir a sua proteção.“Simplesmente
porque a Rússia queria poupá-los do perigo que as atividades militares
podem trazer”, afirmou então Vasily Nebenzya.Em
17 de março, o Tribunal Penal Internacional (TPI), com sede em Haia,
emitiu um mandado de detenção para o Presidente russo, Vladimir Putin,
por crimes de guerra na Ucrânia, pelo seu alegado envolvimento na
deportação de crianças de territórios ucranianos ocupados para a Rússia.