Roteiros atlânticos da casa senhorial seriam mais um atrativo
8 de mai. de 2025, 09:30
— Ana Carvalho Melo
Qual a importância da realização do IX Colóquio Internacional “A Casa
Senhorial em Portugal, Brasil e Goa. Anatomia dos Interiores. Centros e
periferias, encruzilhadas e circulações” em São Miguel?Este é um
evento que começou como um Colóquio Luso-Brasileiro, em 2010, e que tem
vindo a realizar-se em várias localidades e a alargar os seus
territórios.O tema de base é a casa senhorial do período antigo -
portanto, do Antigo Regime - mas também do século XIX, depois da
Revolução Liberal, que vai unindo estes territórios que pertenceram a
Portugal ou que tiveram influência portuguesa, quer em Portugal
continental, quer nas ilhas, quer no Brasil, quer até em Goa.É muito
importante aprofundar o conhecimento desta realidade, que é
multifacetada, porque a casa representava uma instituição: não era só um
lugar de residência, era um lugar de poder, era um lugar de
representação social e também de administração militar e civil. Pelo que
tem toda esta importância, tanto pelo lado sociológico como pelo lado
material da construção, da arquitetura, das técnicas construtivas, de
tudo aquilo que representam os saberes acumulados no tempo e as
transformações do gosto, que foram também sendo plasmadas na casa.Em São Miguel, o que temos para mostrar aos participantes neste congresso?Nós
tentamos conjugar a parte das conferências com visitas de campo, onde
vamos visitar algumas casas em Ponta Delgada e nos concelhos da Ribeira
Grande, Vila Franca e Povoação. Portanto, será apenas um aperitivo, mas é
o que é possível, dado que considerámos que era muito importante este
contacto direto com o objeto, onde se podem realmente trocar
experiências e partilhar conhecimentos perante os objetos concretos e os
ambientes.Muitas destas casas já foram reocupadas com outras
funções e pertencem hoje a entidades de diferente natureza, mas algumas
ainda se mantêm em mãos privadas, e é importante chamar a atenção para o
facto de que estes proprietários são guardiões de um património
inestimável, pelo que é necessário terem algum reconhecimento e algum
apoio.Como é que se pode descrever este património aqui na Região? Tem características distintas?Sim,
tem características distintas. Nós participamos dessas relações
próximas e distantes, quer com o continente português, quer com espaços
mais alargados, nomeadamente com o Brasil e a Europa.Mas depois
desenvolvem-se localismos, aspetos locais que têm a ver com o facto de
termos uma arquitetura muito mais empírica, muito mais ligada aos
saberes tradicionais, em que os mestres de obras, os carpinteiros, os
pedreiros, etc., desenvolvem técnicas e soluções próprias - o que dá um
vernacularismo particular às nossas casas.Além disso, a dimensão
também é mais reduzida, menos aparatosa, mas não deixa de ser
representativa daquilo que é a nossa realidade. Pode-me dar exemplos dessas casas?O
maior palácio construído nos Açores é o Palácio Fonte Bela, que
atualmente alberga a Escola Secundária Antero de Quental. Temos também o
Palácio de Sant’Ana, que foi residência da família Jácome Correia e é
hoje a residência oficial do Presidente do Governo Regional dos Açores.
Mas existem outros, como o Palácio dos Remédios, na ilha Terceira, que
atualmente acolhe a Secretaria Regional da Saúde e Segurança Social.Temos
outros que foram transformados em hotéis, como, recentemente, o Hotel
Mercure, que se localiza num palacete já do final do século XVIII e que
pertenceu aos barões de Nossa Senhora da Oliveira. Enfim, há vários
exemplos.Como vê o futuro deste património?Essa é sempre uma
grande questão, porque são testemunhos do passado, de realidades
pretéritas, de um modo de vida e de significados que pertencem realmente
à história, mas nem por isso deixam de ser menos significativos, porque
nós temos de ter os nossos valores culturais ancorados na história, nas
tradições e num sentido de continuidade. Como tal, é muito importante a
preservação deste património, o que tem sido difícil, porque faltam
especialistas, quer para o restauro e a recuperação, quer os recursos
financeiros. Eu penso que há espaço para que estas casas sejam
verdadeiramente âncoras de narrativas sobre muitos aspetos que ligam as
artes decorativas, os aspetos da arquitetura, a paisagem, os jardins e
que podem estar associados a uma ideia de turismo cultural.Nós temos
grande vantagem em estabelecer estas pontes com outros territórios,
nomeadamente aqueles com os quais tivemos grandes relações: o Brasil, o
norte de Portugal, Lisboa - enquanto Corte - e também com as ilhas da
Macaronésia, onde ainda existe algum deste património. Nesse sentido,
podíamos criar roteiros atlânticos da casa senhorial, que funcionariam
como mais um atrativo para o destino Açores, tornando-o também único
nesse aspeto.Eu não me canso de sublinhar que os Açores não são só
natureza. Aliás, a nossa natureza é muito humana, muito transformada,
muito antropomorfizada. O património edificado e o património imaterial
são dimensões também muito importantes e muito ricas nos Açores.Os trabalhos de reabilitação que têm vindo a ser realizados, têm conseguido preservar também a identidade?Tem-se
destruído muito e muitas coisas estão em estado de ruína. Eu não me
canso de chamar a atenção para o caso da Quinta das Necessidades, que
era uma das mais fantásticas casas nobres dos Açores e que está num
estado de ruína lamentável. Eu sei que existe um projeto para a sua
recuperação e integração num projeto turístico, mas até agora nada foi
feito, e muito tem sido vandalizado. Esse é um caso particular que me
incomoda especialmente.Há também uma visão por vezes distorcida do
que é a conservação do património, que se resume à conservação das
fachadas, ao “fachadismo”. E isso não é, de facto, preservação. A casa é
um espaço, e não uma fachada. Mas também há alguns bons exemplos de edifícios que têm sido recuperados.