Roteiro das Olarias de Vila Franca do Campo quer “dar futuro” ao ofício
11 de dez. de 2020, 17:04
— Lusa/AO Online
No sítio onde os textos não são feitos de
palavras, mas são antes “fragmentos cerâmicos, restos de louça partida” e
uma racha é uma “ferramenta feita a partir de cana natural, que servia
para alisar e realizar incisões na peça de louça”, há “barros gordos” e
“barros magros”, de acordo com a sua plasticidade.Os
termos podem gerar confusão a quem vem de fora, mas é por isso que o
Roteiro das Olarias, em Vila Franca do Campo, vem equipado com um
glossário, que adorna uma das paredes da Olaria do Mestre José Batata.Lá
se percebe que ‘escarrolar’, um termo que entrou no léxico micaelense
como sinónimo de violência, vem do ofício da olaria e significa
“desfazer, desmanchar” e que ‘sovadeira’ é uma “espécie de banco ou mesa
para ‘sovar’ (bater) o barro”.Mas o
caminho traçado na freguesia de São Pedro começa na Rua da Cancela,
onde, junto à loja dedicada ao roteiro, que foi também hoje inaugurada,
se encontra a Olaria Mestre João da Rita.O
mestre que dá nome à casa não estava lá para ver a inauguração deste
percurso, mas o seu filho, Rui Rodrigues, afirma que esta iniciativa,
que partiu da Junta de Freguesia de São Pedro e foi concretizada pela
Câmara Municipal, “vem de muito amor”.“É
uma iniciativa boa para quem quiser aprender, para dar futuro à
continuidade da vida”, considera o oleiro, que quer “chamar as pessoas
para ver, fazer” e está disposto a ensinar.Rui Rodrigues vê neste projeto uma maneira de “valorizar a arte da olaria”.“Dar
futuro” é um dos objetivos deste projeto que celebra uma indústria que
assumiu um papel fulcral na atividade económica do concelho de Vila
Franca do Campo, particularmente naquela freguesia da cidade, mas que
hoje está reduzida a dois ou três oleiros que se dedicam em permanência.Um
ofício que transcende a técnica, lembra o presidente da Câmara
Municipal, Ricardo Rodrigues, ao referir que, desses oleiros, há alguns
“mais virados para essa área dos utensílios domésticos, outros com
alguma criatividade, que é o caso do mestre José Batata, que inovavam,
tornando o manusear do barro numa arte”.Também
Rui Rodrigues transformou o ofício que aprendeu com o pai, criando
esculturas, como as duas Coroas do Espírito Santo que tem expostas no
espaço que liga a loja à oficina.“São
obras que vêm da minha criatividade e também uma ajuda do meu pai. Da
parte da escultura, foi tudo inventado, que eu aprendi por mim, como
também na parte da roda. (...) Estou sempre evoluindo e espero evoluir
cada vez mais”, afirma.A oficina do Mestre
José Batata é o terceiro ponto do roteiro, onde estão expostas algumas
das peças do artista, que morreu em 2006.O
trabalho do artista merece um extenso elogio do pintor e escritor
micaelense Tomaz Borba Vieira, testemunho em vídeo que pode ser visto
neste espaço.Mas antes de lá se chegar, há
paragem obrigatória no Forno de Louça Manuel Jacinto Carvalho, que, em
tempos, funcionou como forno coletivo, e que agora alberga conteúdos
multimédia que explicam o processo de fabrico da louça e a importância
que teve na economia do município e da ilha.O
roteiro termina junto ao mar, na Olaria-Museu Mestre António Batata,
onde, com uma vista privilegiada para o ilhéu de Vila Franca do Campo,
estão instaladas três rodas tradicionais, que podem ser usadas por
todos.Este espaço mantém a traça original e
é usado pelo Museu Municipal para a realização de 'workshops', mas, aos
sábados, está aberto para quem quiser servir-se da roda e da mufla, um
forno de cozer barro, para fazer as suas peças.O
projeto do Roteiro das Olarias da Vila representou um investimento de
260 mil euros, que foram candidatados a fundos comunitários, e é
promovido pelo Museu Municipal de Vila Franca do Campo.A
ideia “nasceu da Junta de Freguesia de São Pedro”, mas o projeto “foi
muito acarinhado pela Câmara Municipal”, afirma o presidente da câmara.“Quando
uma Junta de Freguesia e a Câmara Municipal se juntam para retomar essa
atividade – felizmente, ainda temos alguns oleiros, mestres, que
continuam a ser os artistas de Vila Franca do Campo (…) – faz-nos
acreditar que este projeto tem pernas para andar para o futuro,
retomando uma tradição que envolveu muitos oleiros, aqui, em Vila Franca
do Campo”, considera Ricardo Rodrigues.