Riquezas submarinas do "Gigante do Atlântico" vão ser divulgadas em documentário

Hoje 17:04 — Lusa/AO Online

"Portugal tem ali, no meio do oceano, um monumento, uns Jerónimos, uma Torre de Belém ou um mosteiro da Batalha, de biodiversidade. O documentário quer dar a conhecer esse património, essa riqueza", disse à Lusa o administrador e responsável científico da Fundação Oceano Azul (FOA), Emanuel Gonçalves.A divulgação do ecossistema, que foi estudado por uma expedição científica em setembro de 2024, serve também para sensibilizar para a necessidade de proteção daquela área marinha, acrescentou.Áreas oceânicas são um caso típico de 'longe da vista longe do coração' e Emanuel Gonçalves lembrou que "a perceção de que o oceano lá longe não tem problemas, porque é demasiado longe e demasiado grande para sofrer impactos não é verdadeira".Daí a importância de trabalhos de divulgação como o documentário "Gorringe - O Gigante do Atlântico", saído das imagens captadas durante a expedição científica por Nuno Sá, operador de câmara e realizador subaquático premiado e com trabalho para a série Blue Planet da BBC e para a National Geographic.O Banco de Gorringe fica a cerca de 130 milhas náuticas (cerca de 240 quilómetros) a sudoeste do cabo de S. Vicente e é uma cordilheira submarina com cerca de 180 quilómetros de comprimento e 60 quilómetros de largura com dois picos principais, os montes submarinos Gettysburg e Ormonde, que, apesar de submersos, ao elevarem-se desde profundidades de cerca de 5.000 metros são mais altos do que as montanhas do Pico (Açores) e Serra da Estrela juntas e são as montanhas mais altas da Europa ocidental. Os dois picos são ecossistemas de elevada biodiversidade, com habitats que vão desde florestas de algas até recifes profundos de coral de água fria.As imagens de Nuno Sá, captadas desde a superfície até 60 metros de profundidade, mostram a vida da montanha submarina em que cerca de 30 cientistas de 14 centros de investigação trabalharam durante três semanas na expedição - promovida pela FOA em conjunto com o Oceanário de Lisboa, o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) e a Marinha Portuguesa -, em que registaram pelo menos sete espécies de cetáceos, 55 espécies de algas, 12 espécies de corais, 36 espécies de peixes, para além de 523 tipos de invertebrados.O documentário, que vai ser oficialmente apresentado na quarta-feira - depois de uma apresentação preliminar em junho de 2025 em Nice, França, na conferência dos oceanos das Nações Unidas -, resulta de mais de 100 horas de vídeo de alta definição, equivalentes a 24 ‘terabytes’ (TB) de armazenamento de dados, e de um trabalho de edição de "três meses, contínuo, incluindo muitos fins de semana". "Já filmei desde a Antártida ao Ártico e esta talvez tenha sido a situação fisicamente mais dura que já tive, porque as correntes eram realmente muito fortes. O banco de Gorringe é o topo de uma montanha em pleno oceano que vem de milhares de metros de profundidade, o que gera correntes repentinas em que às vezes em cinco minutos passávamos de não ter corrente nenhuma para ter uma corrente como um rio em que não era possível avançar um metro", disse Nuno Sá.O realizador subaquático disse à Lusa que, para além das florestas de laminárias [algas castanhas que chegam a ter vários metros de altura], o destaque das imagens recolhidas vai para a concentração invulgar de tremelgas [raias elétricas] no banco de Gorringe."Posso dizer sinceramente que na minha vida inteira tinha visto talvez meia dúzia de tremelgas juntas e ali vimos alguns milhares, em várias concentrações de centenas, todas fêmeas e a maioria grávidas" adiantou, para sublinhar a importância da proteção daquele ecossistema.A expedição de setembro de 2024 produziu conhecimento científico para apoiar a declaração do banco de Gorringe como Área Marinha Protegida, integrada na futura Reserva Natural Marinha D. Carlos, que será a maior área marinha protegida em Portugal e uma das maiores da União Europeia, com uma área de 173 mil quilómetros quadrados, quase duas vezes a área do território emerso de Portugal.