Ricciardi diz que Salgado o tomou “de ponta” quando questionou no Conselho Superior
BES/GES
17 de out. de 2024, 16:05
— Lusa/AO Online
Ouvido
como testemunha no terceiro dia do julgamento do processo BES/GES, o
primo direito de Ricardo Salgado, com quem entrou publicamente em rota
de colisão no final de 2013, explicou que apenas chegou em 2012 ao
Conselho Superior (CS) do Grupo Espírito Santo (GES), onde estavam
representados os cinco clãs e que só se aperceberia da falsificação das
contas da sociedade ESI no final de 2013.“Na
primeira vez que cheguei ao Conselho Superior estavam já quase todos os
membros e o meu pai, que era o presidente, informou que o CS não podia
começar porque Ricardo Salgado não estava. Em primeiro lugar, o meu
espanto, porque Ricardo Salgado era um vogal como qualquer outro, mas
tivemos de ficar todos à espera. Foi o começo de um certo
desentendimento meu com Ricardo Salgado”, contou. “Em
vez de começarmos a discutir assuntos, Ricardo Salgado começou a
debitar o que tinha sido feito e o que se ia fazer, tanto no setor
financeiro, como não financeiro. E eu levantei o braço e perguntei se
era para discutirmos os assuntos ou se era para ouvir Ricardo Salgado
dizer o que íamos fazer… a partir daí começou a tomar-me de ponta,
porque viu que eu não estava disposto a fazer a mesma figura dos outros
no CS do grupo”, frisou.José Maria
Ricciardi, que admitiu logo no começo da audição que não era “nem amigo,
nem inimigo” de Ricardo Salgado, explicou também os cargos que ocupou
em diversas entidades do GES e o que fez quando detetou os problemas nas
contas.“Quando se percebeu que as contas
estavam falsificadas, a 07 de dezembro de 2013, se não estou em erro,
apresentei um papel para a ata do conselho a dizer que não tinha
qualquer conhecimento daquilo e que queria uma auditoria e que se
apurassem responsabilidades”, indicou.O
ex-presidente do BESI salientou também o momento em que percebeu que a
ESI estaria em situação de insolvência, quando o antigo contabilista do
GES, Machado da Cruz, assumiu que o ‘buraco financeiro’ seria muito
superior.“Havia um grupo de trabalho que
descobriu isto e disse que as contas de 2012 tinham uma diferença de
1.200 milhões de euros no passivo e, mesmo assim, Machado da Cruz disse
que em 2013 ainda havia por cima mais não sei quantos mil milhões, o que
fazia que o passivo não fosse uns três mil milhões mas uns sete mil
milhões. Para quem percebe a área, via que estávamos completamente
insolventes”, reconheceu.O antigo
presidente do BES, Ricardo Salgado, é o principal arguido do caso
BES/GES e responde em tribunal por 62 crimes, alegadamente praticados
entre 2009 e 2014.Entre os crimes
imputados contam-se um de associação criminosa, 12 de corrupção ativa no
setor privado, 29 de burla qualificada, cinco de infidelidade, um de
manipulação de mercado, sete de branqueamento de capitais e sete de
falsificação de documentos.Além de Ricardo
Salgado, estão também em julgamento outros 17 arguidos, nomeadamente
Amílcar Morais Pires, Manuel Espírito Santo Silva, Isabel Almeida,
Machado da Cruz, António Soares, Paulo Ferreira, Pedro Almeida Costa,
Cláudia Boal Faria, Nuno Escudeiro, João Martins Pereira, Etienne
Cadosch, Michel Creton, Pedro Serra e Pedro Pinto, bem como as
sociedades Rio Forte Investments, Espírito Santo Irmãos, SGPS e Eurofin.Segundo o Ministério Público, a derrocada do GES terá causado prejuízos superiores a 11,8 mil milhões de euros.