Como as tragédias mudaram a Proteção Civil nos Açores
30 de out. de 2017, 08:13
— Lusa/AO Online
“A Proteção Civil era praticamente inexistente do ponto de
vista operacional, excetuando o labor próprio das associações de
bombeiros que estavam indevidamente equipadas, indevidamente
preparadas”, disse Carlos César em entrevista à agência Lusa a propósito
da passagem dos 20 anos da tragédia da Ribeira Quente, que vitimou 29
pessoas.No primeiro mandato, além desta tragédia, o Governo
Regional teve de responder a cheias, nas Flores e em São Miguel, à
“tempestade de mar” com “navios que foram projetados” para a avenida
marginal de Ponta Delgada, ao sismo do Faial ou à queda de um avião da
SATA em São Jorge.“Este foi todo um tempo em que o grande
problema, além dessa coincidência infeliz e quase contínua de
incidentes, foi que houve simultaneamente a necessidade de olhar para o
nosso sistema de Proteção Civil e perceber até onde ele servia e
resolver também um problema que era um problema de consciência e de
cultura de Proteção Civil que estava absolutamente ausente, desde a
decisão política até à forma de desenvolvimento de algumas atividades
económicas, até ao ambiente escolar”, adiantou.Segundo o
ex-governante, passou-se a “refletir a maior parte das decisões
políticas e de organização dos sistemas públicos e da cooperação com os
privados numa ótica de Proteção Civil no seu sentido mais lato e de
resposta a situações de emergência”.Carlos César descreveu que
era um tempo em que os Açores “tinham grandes fragilidades no seu
sistema rodoviário, tinham uma situação absolutamente gritante de
indigência do ponto de vista habitacional”.Acresce uma “situação
de tensão conflitual e de competição detestável entre o governo regional
e as Forças Armadas e as forças de segurança” que “obstaculizava uma
intervenção séria e devidamente concatenada dessas forças em situações
de emergência”, referiu.“Foi preciso recomeçar de um ponto de
vista do que é um sistema de Proteção Civil praticamente do zero”,
afiançou, apontando a rede de comunicações, a forma de ocupação do
território, as acessibilidades os equipamentos.O antigo
governante adiantou que durante os seus quatro mandatos à frente dos
destinos do arquipélago foram investidos, por exemplo, “mais de 600
milhões de euros apenas na recuperação de infraestruturas atingidas por
catástrofes”.“Não houve durante os 16 anos em que estive no
Governo um único ano em que não estivéssemos a investir na reabilitação
de catástrofes. (…) Chegámos a ter 25% do orçamento de investimentos da
Região Autónoma com muita frequência apenas centrado em catástrofes, o
que nos roubou muitos recursos” para outros investimentos, notou.Surgiu,
também, uma nova rede de telecomunicações, alvo de várias renovações e
atualizações, a última das quais já na governação do atual presidente do
executivo regional, Vasco Cordeiro.O Governo dos Açores acabou também por recusar o SIRESP - Sistema Integrado das Redes de Emergência e Segurança de Portugal.De
acordo com um documento do Serviço Regional de Proteção Civil e
Bombeiros dos Açores a que a Lusa teve acesso, após a instalação desta
rede integrada de comunicações, foi possível constatar “vantagens” deste
sistema face ao SIRESP.Uma delas passa por “uma maior cobertura
na rede, tendo mesmo ultrapassado os 95% de cobertura do território”, a
que acresce “uma maior capacidade de assegurar o funcionamento dos
repetidores com energia de emergência”.“[…] Através das baterias e
dos grupos geradores, permite um funcionamento autónomo e
ininterruptamente por quase seis dias”, sendo que “o SIRESP está
dimensionado para só trabalhar seis horas nesta situação”, refere o
documento.Por outro lado, a rede do Serviço Regional de Proteção
Civil e Bombeiros dos Açores (SRPCBA) possibilita “a interligação
operacional direta e em tempo real de todos os utilizadores” da Proteção
Civil “com outras entidades, nomeadamente com os meios da Marinha e da
Força Aérea quando em operação”.