Reunião em Bruxelas entre líderes de Sérvia e Kosovo acaba sem acordo
18 de ago. de 2022, 16:27
— Lusa/AO Online
Numa
declaração à imprensa, sem direito a perguntas, depois de ter mediado um
encontro de alto nível que se prolongou por várias horas, o Alto
Representante da UE para a Política Externa e de Segurança disse que
“infelizmente, não foi possível chegar a um acordo” para solucionar a
disputa em curso entre Sérvia e Kosovo, em torno da decisão de Pristina
de impedir o uso de documentos de identidade e matrículas da Sérvia no
território do Kosovo.Borrell sublinhou,
todavia, que os dois líderes – o Presidente da Sérvia, Aleksandar Vucic,
e o primeiro-ministro do Kosovo, Albin Kurti - concordaram em
prosseguir as negociações “nos próximos dias” e disse acreditar num
compromisso até 01 de setembro.Apontando
que este foi o terceiro encontro ao mais alto nível no quadro do diálogo
entre Belgrado e Pristina facilitado pela UE com vista à normalização
das relações entre Sérvia e Kosovo, Borrell salientou, todavia, que
“esta não foi uma reunião normal, ordinária”, apontando mesmo que se
tratou de um encontro “em modo de gestão de crise”, para discutir “os
desenvolvimentos muito negativos no terreno e tensões crescentes no
norte do Kosovo”.O chefe da diplomacia da
UE indicou que a reunião centrou-se sobretudo na “responsabilidade de
ambos os líderes em procurarem soluções de boa fé, para garantir a paz e
estabilidade na região”, acrescentando que “as partes serão
responsabilizadas por qualquer escalada” da tensão.O
responsável espanhol observou que as tensões atuais “são sintomas de
questões mais amplas não resolvidas” e comentou que “hoje aconteceu lá”,
no norte do Kosovo, “mas amanhã pode acontecer noutro sítio qualquer,
porque há um problema de fundo” que as partes têm de resolver em
definitivo.“Penso que ambos perceberam que
não há alternativa ao diálogo. Há certamente grandes divergências entre
ambos, especialmente sobre o estatuto da futura relação. Mas ambos
concordaram em prosseguir discussões numa base regular”, disse.Josep
Borrell revelou que também fez ver aos dois dirigentes que este é “um
momento crítico para a Europa”, e o menos indicado para o regresso das
tensões nos Balcãs Ocidentais.“Vemos o
regresso da guerra ao nosso continente. Depois da invasão russa da
Ucrânia, estamos a enfrentar um momento dramático e muito perigoso para o
nosso continente. E este não é o momento para tensões crescentes. É
altura de buscar soluções e resolver questões há muito pendentes”,
declarou, garantindo que este diferendo está no topo da sua agenda.“Ao
encerrar a reunião, também deixei claro que a adesão à UE deve
permanecer o grande objetivo para Sérvia e Kosovo, mas para isso têm de
encontrar uma forma de avançar no processo de normalização das relações,
e o primeiro passo é encontrar uma solução para a situação atual”,
concluiu.O 'diálogo' de quinta-feira em
Bruxelas entre Vucic e Kurti foi convocado por Josep Borrell na
sequência de um agravamento da tensão entre os dois países no final de
julho, quando centenas de sérvios kosovares bloquearam as estradas no
norte do Kosovo junto à fronteira, em protesto contra as decisões do
Governo kosovar sobre a aplicação de medidas para impedir o uso de
documentos de identidade e matrículas da Sérvia no território do Kosovo.Na
última quinta-feira, o Presidente da Sérvia, Aleksandar Vucic, acusou
as autoridades kosovares de estarem a preparar as condições para matar
cidadãos sérvios no norte do Kosovo.Recentemente,
o primeiro-ministro kosovar Albin Kurti sugeriu a possibilidade de a
Sérvia, “estimulada pela Rússia”, iniciar “uma guerra” no Kosovo.Desde
2011 que a Sérvia e o Kosovo promovem negociações para a normalização
das relações, mediadas pela UE, mas sem resultados palpáveis até ao
momento.Os cerca de 120.000 sérvios
ortodoxos do Kosovo – os números divergem consoante a origem,
admitindo-se que possam chegar aos 200.000, com cerca de um terço
concentrados no norte do território – não reconhecem a autoridade de
Pristina e permanecem identificados com Belgrado, de quem dependem
financeiramente.Belgrado nunca reconheceu a
secessão do Kosovo em 2008, proclamada na sequência de uma guerra
sangrenta iniciada com uma rebelião armada albanesa em 1997 que provocou
13.000 mortos, e motivou uma intervenção militar da NATO contra a
Sérvia em 1999, à revelia da Organização das Nações Unidas (ONU).Desde
então, a região tem registado conflitos esporádicos entre as duas
principais comunidades locais, num país com um terço da superfície do
Alentejo e cerca de 1,7 milhões de habitantes, na larga maioria de etnia
albanesa e religião muçulmana.O Kosovo
independente foi reconhecido por cerca de 100 países, incluindo os
Estados Unidos da América, que mantêm forte influência sobre a liderança
kosovar, e a maioria dos Estados-membros da UE, à exceção da Espanha,
Roménia, Grécia, Eslováquia e Chipre.A
Sérvia continua a considerar o Kosovo como parte integrante do seu
território e Belgrado beneficia do apoio da Rússia e da China, que à
semelhança de dezenas de outros países (incluindo Índia, Brasil ou
África do Sul) também não reconheceram a independência do Kosovo.