'Restrições aos cargos de direção médica podem criar dificuldades nos Açores'
12 de abr. de 2023, 05:50
— Lusa/AO Online
“Reduzir
o universo de pessoas ou dar vantagem a médicos que só estejam em
regime de exclusividade vai fazer com que, se calhar, não tenhamos
pessoas suficientes para integrarem as comissões de serviço que já
existem”, advertiu a governante, ouvida na Comissão de Assuntos Sociais
do parlamento açoriano, a propósito de uma resolução do PAN sobre a
criação de “critérios para a nomeação de cargos de direção médica”.De
acordo com a proposta do deputado Pedro Neves, do partido
Pessoas-Animais-Natureza (PAN), os diretores de serviços das unidades de
saúde do arquipélago devem ser especialistas com a categoria de
assistente graduado e, preferencialmente, profissionais que não acumulem
funções em clínicas privadas.Mónica Seidi
explicou aos deputados que nos Açores “não é incompatível” que os
médicos acumulem funções entre o setor público e o setor privado, mas
admitiu que possa ser necessário tornar esses casos mais
“transparentes”, obrigando os médicos a declararem as situações de
acumulação de funções.“Tem de ser entregue
essa declaração, esse compromisso de honra, junto dos conselhos de
administração, e nessa declaração deve ficar explícito o local onde
trabalha e o horário onde presta esse serviço, de forma a termos a
certeza que não há aqui qualquer tipo de incompatibilidade”, insistiu a
secretária regional da Saúde.A governante
adiantou ainda que as únicas exigências que a região pode fazer, nesta
matéria, incidem apenas sobre o trabalho médico desenvolvido no Serviço
Regional de Saúde, ressalvando que, em relação ao privado, ninguém tem
“nada a ver com isso”.“Nós não devemos
estar preocupados em quantos sítios o médico trabalha ou se trabalha
aqui ou se trabalha acolá. Não. Nós devemos estar preocupados que,
durante o horário normal de trabalho, o médico cumpra com aquilo que
está estipulado. O que é feito fora do horário de trabalho não temos
nada a ver com isso”, frisou.A proposta do
PAN entende, porém, que é do total interesse público “minorar eventuais
conflitos gerados pela acumulação de funções públicas e privadas em
cargos de decisão”, defendendo, por isso, que se dê “um forte sinal” no
sentido do “reconhecimento efetivo do trabalho médico público
exclusivo”.“É certo que a atividade
privada nem é sempre, nem é de todo, incompatível com a simultânea
atividade pública, quando o médico atua sob os mais puros princípios
éticos e deontológicos, mas existem casos de difícil julgamento, ou que
levantam eventuais dúvidas sobre a existência de um certo conflito de
interesses”, pode ler-se no projeto de resolução do PAN.Estas
exigências têm, no entanto, o apoio do presidente da Associação
Portuguesa de Administradores Hospitalares, Xavier Barreto, também
ouvido pela Comissão parlamentar de Assuntos Sociais, que lembrou que
muitas destas medidas já fazem parte da legislação nacional.“Existe
sim, tal como está previsto nesta proposta, a necessidade de o médico
não poder acumular a direção de serviço do hospital com, por exemplo, a
direção de um serviço de um hospital privado ou do setor social, o que
se compreende por razões óbvias”, justificou Xavier Barreto,
acrescentando que poderá haver casos de “conflito de interesses”.Mas
o responsável pelo Gabinete de Prevenção contra a Corrupção nos Açores,
Francisco Cota Lima, que também foi ouvidos pelos deputados, entende
que as exigências que o PAN pretende introduzir nas nomeações para
cargos de direção médicas na região poderão dificultar a contratação de
profissionais de saúde nas ilhas mais pequenas.“Consigo
aqui antever que alguns destes pontos poderão não ser aplicáveis a
determinadas unidades de saúde”, advertiu Francisco Cota Lima, dando o
exemplo dos centros de saúde de Santa Maria, da Graciosa, de São Jorge,
das Flores e do Corvo, que “poderão vir a ter dificuldade na nomeação de
cargos de direção clínica”.A Comissão de
Assuntos Sociais da Assembleia Legislativa dos Açores tinha prevista
também a audição de um representante da Ordem dos Médicos, sobre a
proposta do PAN, mas a instituição optou por enviar, mais tarde, um
parecer por escrito sobre esta matéria.