Resposta da UE não pode limitar-se a ajudas de Estado
Crise/Inflação
17 de jan. de 2023, 14:16
— Lusa/AO Online
Em
declarações à imprensa após uma reunião de ministros das Finanças da
União Europeia (Conselho Ecofin), Fernando Medina adiantou que a
resposta da UE à Lei de Redução da Inflação adotada pelos
norte-americanos mereceu hoje uma discussão intensa entre os 27, tendo a
posição de Portugal sido “muito clara”, ao defender que uma alteração
ao regime de ajudas estatais deve forçosamente ser acompanhada de
decisões ao nível do seu financiamento.“A
dificuldade e a preocupação que nós temos com o tema dos auxílios de
Estado e com a alteração simples dos critérios dos auxílios de Estado é
porque se essas alterações forem feitas só nessas áreas, corre-se
obviamente o risco, que é real – mais do que um risco será uma certeza –
de desequilibrarmos no fundo o que é o funcionamento do mercado interno
da UE, isto é, prejudicarmos os países que são mais pequenos e que têm
menos capacidade orçamental”, começou por dizer. O
ministro sublinhou que, nesse caso, “só os países mais ricos terão
capacidade financeira, só por si, para poder apoiar mais determinado
tipo de indústrias e determinado tipo de atividades”, replicando-se o
sucedido com os subsídios excecionais autorizados na Europa desde o
início da pandemia da covid-19, quando as duas maiores economias,
Alemanha e França, representaram praticamente 80% das ajudas estatais
concedidas.“E, por essa razão, sublinhamos
que, neste desenho de resposta ao programa norte-americano, a discussão
das mudanças de patamares nas ajudas de Estado tem de vir par a par com
o financiamento. Isto é, nós não podemos só dizer 'bom, agora podemos
dar mais apoios à industria e à economia', sem ter o que é um pacote de
financiamento e verbas de financiamento que permitam estado de igualdade
dentro do espaço europeu”, disse.“Senão –
prosseguiu Fernando Medina – nós, para resolvermos um problema de
desequilíbrio na relação com os norte-americanos, criamos um problema
ainda mais sério, que é um problema de desequilíbrio maior no espaço da
UE”, salientou.O ministro adiantou que, na
sua intervenção na reunião, expressou de forma “muito clara” a posição
de Portugal, no sentido de que “os dois temas têm de andar a par”. “Vamos
discutir, sim, alterações aos auxílios de Estado, estamos disponíveis
para isso. Mas é preciso discutir também as condições de financiamento
desses auxílios”, reforçou.Questionado
sobre a eventual criação de um fundo soberano europeu, Medina escusou-se
a pronunciar-se relativamente a “uma ideia sobre a qual temos ainda
pouco detalhes”, mas considerando evidente que a resposta da UE aos
Estados Unidos a nível de financiamento da transição verde “não pode
ficar só nos orçamentos nacionais”.“Agora,
tem de ser feita através de mecanismos que assegurem essa igualdade de
tratamento dentro do espaço europeu”, insistiu, apontando, a título de
exemplo, que um instrumento comunitário ao qual não possam aceder as
pequenas e médias empresas (PME) ou não contemple a “valorização de
tecnologias ou indústrias em desenvolvimentos em determinados países”,
pode “acabar por se dirigir fundamentalmente aos países do centro, mais
industrializados, e não assegurar as condições de igualdade” no mercado
interno. “A ideia é boa, o conceito é bom,
vai na direção certa. Agora, precisamos de trabalhar nos seus detalhes,
conhecê-los, e participar na definição dos seus detalhes”, disse,
reiterando que a UE não pode perder a ‘corrida’ para os Estados Unidos,
“mas os países mais pequenos [da UE] não podem perder para os países
maiores, numa competição interna que não faria nenhum sentido abrir ou
acentuar mais neste momento”. Hoje mesmo,
discursando no Fórum Económico de Davos, na Suíça, a presidente da
Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, anunciou que Bruxelas vai
propor uma adaptação temporária das regras das ajudas de Estado e
avançar com um fundo soberano europeu para manter a atratividade da
indústria europeia.Discursando na 53.ª
reunião anual do Fórum Económico Mundial, em Davos, na Suíça, Ursula von
der Leyen dedicou grande parte da sua intervenção à “transição verde”
rumo a uma economia neutra em carbono, fazendo um balanço dos esforços
que as grandes economias mundiais estão a fazer a nível de investimento
em tecnologias limpas, e assumiu a preocupação na Europa com o plano de
subvenções norte-americano, no montante de 369 mil milhões de dólares.“Vamos
propor a adaptação temporária das nossas regras em matéria de auxílios
estatais, para acelerar e simplificar as coisas. Os cálculos serão mais
fáceis. Os procedimentos serão mais simples. As aprovações serão mais
rápidas. Por exemplo, ofereceremos modelos simples de benefícios
fiscais, assim como apoios direcionados para instalações de produção
dentro de cadeias de valor de tecnologias limpas, para contrariar os
riscos de deslocalização ligados a subsídios concedidos fora da União”,
adiantou.A presidente da Comissão
prosseguiu afirmando-se consciente de que “as ajudas estatais serão
apenas uma solução limitada, que apenas alguns Estados-membros poderão
utilizar”, pois nem todos os países dispõem da mesma margem orçamental
para ajudar as suas empresas, uma questão que tem suscitado preocupação
entre muitos países da UE, que receiam uma distorção cada vez maior
dentro do mercado único, face ao poderio económico de Alemanha e França.“Se
quisermos evitar um efeito de fragmentação do mercado único e apoiar a
transição para tecnologias limpas em toda a União, precisamos também de
aumentar o financiamento da UE. A médio prazo, estabeleceremos um fundo
soberano europeu, como parte da revisão intercalar do nosso orçamento
[plurianual] no final deste ano”, revelou então.Segundo
Von der Leyen, “esta é uma solução estrutural que irá aumentar os
recursos disponíveis para a investigação, inovação e projetos
industriais estratégicos que são essenciais para alcançar o objetivo de
emissões zero”.“Mas como isto levará
tempo, procuraremos uma solução transitória para fornecer apoio rápido e
direcionado, onde for mais necessário. Para este fim, estamos
atualmente a trabalhar arduamente numa avaliação das necessidades”,
disse.