Resposta à pandemia, TAP e SATA explicam mais de metade do défice de 2020
OE2020
12 de mai. de 2021, 14:37
— Lusa/AO Online
No relatório “Evolução orçamental
das Administrações Públicas em 2020”, divulgado, o CFP sustenta que
“a deterioração do saldo das AP [Administrações Públicas] em 2020
deveu-se em mais de metade ao impacto orçamental direto das medidas de
resposta à crise pandémica (2,3% do PIB) e às medidas de apoio
financeiro às companhias aéreas de transporte TAP Air Portugal e SATA
Air Açores (0,7% do PIB)”.Em 2020
registou-se o empréstimo de 1.200 milhões de euros à TAP, enquanto as
garantias prestadas pelo Governo Regional dos Açores à SATA Air Açores
foram de 132 milhões de euros.O défice de
5,7% registado em 2020 segue-se ao excedente de 0,1% registado no ano
anterior, mas foi ainda assim inferior ao antecipado no Orçamento
retificativo de 2020 (que apontava para um saldo de -7,0%) e que o
antecipado na proposta do Orçamento do Estado para 2021 (-7,3%).A
deterioração do cenário macroeconómico provocado pela crise pandémica
foi o principal fator explicativo do agravamento do saldo das contas
públicas, “a que acresceu em menor grau a ação da política
discricionária, que reflete em grande parte as medidas excecionais de
apoio ao emprego e à economia adotadas pelo Governo na resposta à crise
pandémica”, refere o CFP, notando que os encargos com os juros da dívida
beneficiaram em 0,1 pontos percentuais a variação do saldo.A
análise do Conselho de Finanças Públicas à evolução da execução
orçamental em 2020 sublinha que os impactos das medidas de resposta à
crise pandémica tiveram expressão do lado da receita e da despesa e
também ao nível dos passivos contingentes, através das garantias
concedidas a outros setores da economia.“As
AP concederam garantias no montante de 7.160 milhões de euros em 2020,
mais 6.212 milhões de euros do que em 2019”, refere o documento,
sublinhando que “a eventual materialização de parte deste passivo
contingente pode implicar no futuro despesa pública, com consequências
no saldo e na dívida pública”.No que diz
respeito ao impacto orçamental no imediato das medidas de resposta à
pandemia, mais de três quartos traduziram-se num aumento da despesa
(ascendendo a 3.562,2 milhões de euros, o equivalente a 1,7% do PIB),
com o ‘lay-off’ simplificado a corresponder a 823,2 milhões de euros.O
restante impacto resultou numa redução de receita de 1.076,9 milhões de
euros, incluindo aqui, por exemplo, as isenções das contribuições para a
Segurança Social dadas às empresas e a suspensão dos pagamentos por
conta.O documento refere também que a
receita pública registou em 2020 um decréscimo de 5,0% (abaixo da queda
de 5,4% do PIB nominal), o que fez com que o rácio da receita das
administrações públicas em relação ao PIB tenha aumentado em 0,2 pontos
percentuais, para 42,8%, face a 2019.“Em
termos absolutos, a receita das administrações públicas reduziu-se 4.575
milhões de euros determinada, maioritariamente, pela receita fiscal e
contributiva, e mais concretamente pela receita de impostos”, refere o
CFP, detalhando que cerca de quatro quintos deste decréscimo da receita
fiscal ficou a dever-se ao comportamento da receita dos impostos
indiretos (que incidem sobretudo sobre o consumo), que caiu 9,1%.Os
impostos diretos (categoria na qual se incluem o IRS e o IRC)
registaram um comportamento menos desfavorável, caindo 3,7% face a 2019,
‘arrastados’ pela queda do imposto que incide sobre os lucros das
empresas, já que o IRS terminou o ano com uma variação positiva de 3,1%.
A subir estiveram também as contribuições
sociais, que registaram um crescimento anual de 1,2%, explicado pelo
comportamento das contribuições sociais efetivas.“A
contração do PIB nominal a um ritmo mais pronunciado do que o da
receita dos impostos diretos, bem como o aumento das contribuições
sociais efetivas num contexto macroeconómico recessivo, elevou a carga
fiscal das AP em 0,3 p.p. do PIB, ascendendo este indicador a 34,6% do
PIB no ano de 2020”, refere o relatório.Relativamente
à despesa pública, o CFP indica que o crescimento deste agregado
acelerou de 2,5% em 2019 para 7,8% em 2020, tendo registado em termos
absolutos um aumento de 7.103 milhões de euros face a 2019.Cerca
de metade deste aumento deveu-se ao impacto das medidas de resposta à
pandemia, com o organismo liderado por Nazaré Costa Cabral a referir que
no caso das despesas com pessoal se registou um novo aumento, o que
acontece pelo quinto ano consecutivo o que coloca o seu valor total
(23.744 milhões de euros) próximo do “valor máximo absoluto atingido no
ano de 2010” (24.576 milhões de euros).Em
2018 e 2019, as despesas com pessoal representaram 10,7% do PIB, tendo
aumentado para 11,7% do Produto em 2020. Em valor, o aumento de 838
milhões de euros em 2020 (3,7%) foi semelhante ao de 2019 (876 milhões
de euros), sendo cerca de três quartos justificado pelo acréscimo com
ordenados e salários.Ainda assim, “a
despesa pública ficou 1.332 milhões de euros abaixo do valor” previsto
no OE/2020 revisto, “um desvio favorável para o qual contribuíram a
despesa corrente primária (nomeadamente o consumo intermédio, as
prestações sociais e a “outra despesa corrente) e, em menor grau, os
encargos com juros”.A despesa de capital
totalizou 8.355 milhões de euros, registando um acréscimo de 2.103
milhões de euros face a 2019, dos quais 1.663 milhões vêm de ‘outras
despesas de capital’, que incluem o empréstimo de 1.200 milhões de euros
à TAP.