Representações da evolução humana são racistas e sexistas
4 de abr. de 2023, 19:45
— Lusa
Da
autoria de investigadores da Universidade de Howard, Estados Unidos, e
publicado na revista científica “Evolutionary Anthropology”, o estudo
resultou da análise de imagens apresentadas em artigos de investigação
científica, museus, locais de património cultural, documentários,
programas televisivos, livros de medicina e outros materiais educativos,
que chegam a milhões de crianças do mundo inteiro.Dando
como exemplo uma representação de fósseis humanos que foram expostos no
“Smithsonian National Museum of Natural History”, em Washington, os
investigadores mostram como a representação tradicional sugere que a
evolução humana foi de uma pigmentação de pele mais escura para uma pele
mais clara.No artigo publicado sobre o
estudo, os investigadores notam, no entanto, que na atualidade só 14%
das pessoas são identificadas como “brancas”.Rui
Diogo, professor associado da Faculdade de Medicina da Universidade de
Howard e principal autor do artigo, disse à Lusa que todo o racismo e
sexismo representando a evolução humana mostra a imposição da visão
ocidental, ainda que possa ser inconsciente.“Para
o estudo, contactamos pintores, curadores de museus… e o que é curioso é
que o racismo e o machismo são quase inconscientes. Poucos admitem que
são racistas ou sexistas. Nem pensam nisso, repetem as mesmas narrativas
sem pensar”, disse o investigador.Rui
Diogo diz entender o porquê de as pessoas seguirem essas narrativas
inconscientemente, diz que é o que lhes é apresentado desde pequenas,
mas acrescenta que tal não pode ser uma desculpa. “Todos temos
responsabilidade, os curadores, os jornalistas, os que escrevem livros
para os jovens das escolas”.“Quando falo
do Homem das Cavernas, apago instantaneamente a mulher da pré-história”,
diz, acrescentando que o que se vê nos livros e na Internet sobre a
evolução humana dá uma ideia que não corresponde à realidade. “É quase
como se fossemos todos brancos e que os outros estão condenados a
desaparecer. Charles Darwin já dizia isso”.Questionado
pela Lusa Rui Diogo salientou também que mesmo nas publicações na Ásia a
narrativa pode ser racista, colocando o asiático em destaque, mas no
essencial repete a narrativa ocidental.Em
termos gerais, diz, sobretudo em livros para crianças, a evolução não é
representada apenas pelo homem branco, é representada “pelo homem branco
ocidental, de gravata”.No artigo, com o
título "Not Just in the Past: Racist and Sexist Biases Still Permeate
Biology, Anthropology, Medicine and Education", o principal autor
lamenta que ainda hoje haja essa tendência de colocar os seres humanos
mais escuros como “supostamente mais primitivos” e os mais claros como
“mais civilizados”.Essa representação
inexata distorce a “autêntica variabilidade biológica humana”, salientam
os investigadores, que admitem que o racismo e sexismo persistente
poderão estar a servir o propósito da “manutenção da supremacia branca e
masculina” e a exclusão dos “outros”, e alertam que as imagens que são
difundidas “minimizam a complexidade” da evolução humana.