Relatório deteta falhas na proteção às vítimas de violência doméstica na Europa
Covid-19
20 de nov. de 2020, 10:00
— Lusa/AO Online
O Instituto
Europeu para a Igualdade de Género (EIGE, na sigla em inglês) analisou
as medidas que os vários países europeus tomaram para detetar e combater
os casos de violência contra mulheres em contexto de intimidade, tendo
em conta que as medidas de confinamento provocaram “picos de denúncias
de violência doméstica”, e constatou que na maioria dos países europeus,
“a pandemia expôs uma rede de suporte deficitária para as vítimas de
violência de género”. “A falta de fundos e
de abrigos levou a que algumas mulheres fossem colocadas em hotéis ou
alojamentos privados. Apesar de ser de louvar a rápida ação, medidas
pontuais através do setor privado não podem ser a solução”, defende o
EIGE.O organismo salienta também que,
apesar de se saber que desastres naturais e pandemias resultam num
aumento de violência contra as mulheres, “nenhum estado-membro da União
Europeia tinha um plano de contingência para lidar com isso”.“A
pandemia de covid-19 demonstrou como as sociedades estão mal preparadas
para proteger as vítimas de violência em contexto de intimidade. Os
governos não podem fechar os olhos”, rematou.No
entanto, o EIGE salienta que todos os países europeus criaram medidas
especiais para proteger as mulheres de situações de violência em
contexto de intimidade durante a atual pandemia, como o caso da Irlanda,
Espanha ou Lituânia, que lançaram planos nacionais contra a violência
doméstica.“Espanha fortaleceu a
coordenação entre os serviços de saúde, justiça e forças policiais, tal
como a Lituânia. A Irlanda foi mais longe e definiu 160 mil euros [para o
combate à violência doméstica]. Com esse dinheiro, o governo ajudou a
que as casas de acolhimento e as linhas de apoio às vítimas se
adaptassem a novas condições de trabalho à distância”, refere o EIGE, em
comunicado.Por outro lado, os tribunais
irlandeses passaram a dar prioridade aos casos de violência doméstica e
alargaram as audiências remotas, enquanto a polícia faz rondas junto de
mulheres que sofreram de violência doméstica no passado.Ao
nível da legislação, foram vários os países que fizeram adaptações
legislativas de forma a declarar os abrigos e as linhas de apoio
“serviços essenciais” para que continuem acessíveis em todo o tempo.“Na
Letónia, Estónia, Eslováquia e França, a legislação agora obriga a que
os governos encontrem alternativas de alojamento para as mulheres que
são vítimas de violência em casa”, refere o EIGE.Acrescenta
que os tribunais estónios tiveram os poderes reforçados para determinar
ordens de restrição temporárias contra maridos ou companheiros
agressores, protegendo as vítimas de ficarem em situação de sem casa ou
sem-abrigo e colocando a responsabilidade no agressor.Segundo
o EIGE, “quase todos os países europeus” desenvolveram campanhas de
sensibilização para dar a conhecer às possíveis vítimas de que forma
poderiam pedir ajuda e dá como exemplo Portugal pelo trabalho junto das
comunidades migrantes e pessoas refugiadas, enquanto outros países
reforçaram o apoio junto das comunidades ciganas ou mulheres LGBTI.
Espanha, por exemplo, colocou a ênfase no facto de a violência doméstica
ser uma violação de direitos humanos e não uma questão privada.“As
campanhas de sensibilização são importantes para as testemunhas, que
muitas vezes não intervêm porque não sabem reconhecer um caso de
violência conjugal quando o veem”, diz o EIGE, acrescentando que cerca
de 20% a 30% das denúncias feitas através de linhas de apoio partem de
pessoas que presenciam.