Relatório aponta “riscos inaceitáveis” na proposta do consórcio pela Azores Airlines
6 de mar. de 2026, 17:46
— Lusa/AO Online
No
documento a que agência Lusa teve acesso, o júri do concurso
de privatização da Azores Airlines/SATA Internacional reitera que a
proposta final do Atlantic Connect Group (ACG) “não garante a
concretização dos objetivos centrais da privatização”, já que “não
salvaguarda o ativo público”.A agência
Lusa teve acesso ao documento no dia em que a SATA encerrou o processo
de privatização com comunicações formais ao único consórcio admitido, ao
Conselho Estratégico do grupo, à Comissão Especial de acompanhamento do
processo e ao Governo dos Açores.Na
quinta-feira, o Governo Regional já tinha anunciado que apoiava a
recomendação do júri, que concluiu não estarem reunidas as condições
para a adjudicação ao ACG, revelando que vai ser lançado um novo
procedimento baseado na venda direta.No
relatório final, o júri, liderado pelo economista Augusto Mateus,
detalha que a proposta apresentava quatro “riscos inaceitáveis”, como a
falta de capital privado devido à “ausência de compromisso com quaisquer
contribuições de novos ativos e recursos” para a capitalização da
companhia.O júri salienta que a proposta
implicava a “assunção de responsabilidades potencialmente ilimitadas”
por parte da SATA, que ficaria exposta a obrigações em montantes “não
devidamente quantificáveis”.O relatório
defende que a proposta apresentava um “pagamento contingente do preço e a
inexistência de perspetiva de recuperação do investimento realizado”,
condições que poderiam ser consideradas auxílio de Estado.“O
júri entendeu que a verificação conjugada destes quatro elementos que
resultam dos termos da proposta do agrupamento concorrente gera riscos
inaceitáveis para os interesses patrimoniais da entidade pública
alienante, o que inviabiliza o propósito da própria operação”, lê-se no
documento.O júri realça, também, que a
circunstância de o “plano de capitalização apresentado assumir que a
companhia não necessita de injeção” de capital se deve “única e
exclusivamente à total transferência de responsabilidades” para a SATA
Holding.O relatório contrapõe a proposta
inicial do consórcio (que previa “o pagamento do preço de forma integral
com a conclusão do contrato”) com a proposta final, em que esse
pagamento ficaria “dependente da capacidade da SATA/Internacional gerar
fluxos de caixa excedentários e da política de distribuição de
dividendos em vigor”.Entre a proposta
inicial e a final, o júri reduziu a avaliação referente ao conhecimento
na aviação, uma vez que saíram quatro pessoas com “experiência relevante
no setor” (Hélder Marques Rosa, Nuno Ventura Sando dos Santos, Sameer
Adam e André Rego da Silva Ribeiro Reis).O
júri garante ter considerado os acordos do consórcio com os
trabalhadores da Azores Airlines, mas ressalva não conhecer o “teor” dos
entendimentos.O relatório considera,
ainda, que o acordo parassocial proposto (que regula a relação entre
sócios de uma empresa) violava o caderno de encargos, já que eliminava o
“requisito da unanimidade” para a “aprovação de matérias estruturais”
no capital social da Azores Airlines, o que conferiria ao consórcio
“poder irrestrito”.“Faz com que o
agrupamento concorrente tenha poder para aprovar – sem quaisquer
restrições – a diluição da participação da SATA Holding na SATA
Internacional (por exemplo, através de uma fusão) ou até a liquidação da
sociedade”, alertou o júri.O consórcio
ACG apresentou a 24 de novembro de 2025 uma proposta de 17 milhões de
euros por 85% do capital social da Azores Airlines.A
privatização da Azores Airlines vai ter de ficar concluída até ao final
do ano, segundo decisão da Comissão Europeia, que em junho de 2022
aprovou uma ajuda estatal portuguesa para apoio à reestruturação da
companhia de 453,25 milhões de euros, prevendo medidas o desinvestimento
de uma participação de controlo (51%).